#whataboutism

Enquanto escrevia uma farpa sobre Ética, Moral e Lei, fico atónito com a ‘morte por suicídio’ do irreverente Chef Anthony Bourdain. A farpa acaba na gaveta enquanto este texto surge como reflexão pela minha ausência escrita, a vida que vivo, vivemos, e a Sociedade dos factos inconstantes que se diluem para recriar realidades.

Quebrar o silêncio é uma parte da catarse intelectual de cada um e, mesmo já tendo feito grande parte da minha, compreendê-la faz com que tudo tenha um maior sentido na amplitude de onde nos inserimos.

A 10 de Junho de 2012, compreendendo o reflexo da responsabilização em viver com HIV+, partilho;
“Nada como as palavras sábias da nossa família para trazer clareza nos momentos mais periclitantes. Três dias acordado e vários estimulantes de cafeína depois, posso desligar oficialmente o cérebro.”

Hoje revejo o umbiguismo do momento, eu dentro de mim sem sair da ruminância de uma doença, amparado pelos que me amam e sustentado em barbitúricos para me compensar a natural falha. Não só compreendo mais do que a actualidade contemporânea, mas a importância da transparência e a frontalidade que devemos ter frente ao espelho.

O efeito ‘both sides’, narrativa Trumpista do Nós Primeiro, em que os outros são “traficantes de drogas, criminosos, violadores” e alguns até boas pessoas, permite o efeito perverso do ‘whataboutism’ demagógico, raso em factos, rico na crítico da verdade que prefere alternativa. Nivela por igual o que é ‘per se’ diferente. E a diferença é a base da qual se constrói a igualdade, não o seu contrário.

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Quando a deputada Socialista Isabel Moreira se insurge contra a campanha anti-tabagista “as princesas não fumam”, apenas se desmonta o quão doente a Sociedade umbiguista está.

Tenho por princípio crítico a abrangência na aceitação, nunca a exclusão, mas há factos imutáveis por mais que a vontade Humana se imponha. Falo de biologia.
Não serei demagógico, mas do ponto de vista biológico há masculino e feminino, independente do género que se queira sentir querer ou vir a ter, compreendendo a inclusão sem preconceitos.
Depois há o excesso.

Ser a princesa da Mãe, alusão proteccionista que a campanha transmite baseada no estudo que as Mulheres (ainda) fumam mais que os Homens, prende-se numa expressão de carinho e proximidade, não na narrativa histriônica do feminismo de pacote que se fez repercutir.
Mas olha-se para o problema, não a sua solução, emprenhando pelas orelhas frases feitas e não escutando com os ouvidos uma verdade maior.

Há verdades consequentes, mas é na inconsequência dos actos que se esconde a verdade que mais dói.
Hoje vejo como a minha inconsequência me fez mais responsável ainda que o meu reflexo me tenha trazido dor. E nisto a surpresa da ‘morte por suicídio’ de Bourdain me tocar tão de perto ao mesmo tempo que a anestesia da imagem projectada se ter transformado numa norma aceitável.

De facto colocamos a imagem primeiro, o Nós Primeiro, como a idílica projecção inabalável dessa verdade que por dentro se corrói. E porque não, é mais fácil manter-se o antagonista da razão que dialogar para se compreender a sua falácia.
A herança do “Todos diferentes, Todos iguais”, como princípio jurídico de igualdade, falha por esquecer ‘todos diferentes, diferentes oportunidades’. Há Mulheres, há Homens, há (em Democracia) Liberdade de escolha. Podemos escolher ser princesas independente do constrangimento alheio.

Mas a imposição da regra sem o seu contraditório leva-nos ao extremo.
Isabel Moreira prefere falar a sua verdade sem escutar a realidade enquanto Bourdain falou muito da sua realidade escondendo sempre a sua verdade. Ela vive da contra-narrativa estéril enquanto ele semeou uma história que, infelizmente, terminou precocemente.
Num repente tornam-se os antagonistas sobre a verdade e a realidade dos ‘dois lados’ em choque permanente que me têm afastado da escrita em meio de sucessivas crises políticas estimulantes.

A realidade cronológica não vive do whataboutery polarizado actual mas uma farpa tem por princípio aguçar o interesse trazendo o facto como alternativa à narrativa das fake news. Mas o momento é periclitante para a verdade.
Desta não vou “desligar oficialmente o cérebro” mas antes re-centrar escolhas e constrangimentos. Distancio-me de contra-narrativas propícias a um mero ‘whatabout’ redundante. Escolhi: eu também sou uma princesa.

(volto em breve)

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