evidente relevo informativo

O filme Aviador, 2004, de Martin Scorsese, um relato semi-verídico da vida do milionário Norte Americano Howard Hughes, termina sobre o vislumbre daquilo que o magnata se tornou; uma maníaca repetição ao abismo. No fim, olhando-se num espelho; fundo de memórias cumpridas; Howard repete incessantemente “The way to the future” – O rumo para o futuro.
O seu futuro foi a reclusão daquilo que nesse dia tinha feito, o maior falhanço épico de uma carreira cheia de trunfos falhados; fazer voar o maior avião do mundo.

Entre o facto e a ficção, o rumo ao futuro de Hughes foi a sua desgraça, sempre sob a especulação sobre a privacidade do indivíduo e o seu direito de reserva.
Hoje, travando eu esse paralelo sobre o ‘nosso’ rumo para o futuro, não posso deixar de citar o “evidente interesse informativo” que a Direcção de Informação da TVI diz ter ao precisar mostrar, no decurso de uma reportagem da jornalista Judite de Sousa aos incêndios em Pedrógão Grande, um corpo carbonizado coberto por um lençol como seguimento para a entrevista com uma familiar da vítima.

O choque parece ter atingido uma parte dos telespectadores, da Sociedade Civil e até política, num coro de críticas perante a barbárie em fazer do acto ocorrido, desse passar da vida à morte, das vinhetas musicadas com gravações da estrada da morte em plana picado vistas de um drone, como algo mais que mero ardil comercial a ser vendido com espaços promocionais com direito a chamadas de custo adicional para nos safar de uma culpa induzida sem responsabilidade.

A responsabilidade política há de chegar – se já não se sente como um retroactivo de passa culpas entre Governo e oposição – nesse fino silêncio que antes acusava e agora se remete a uma consternação pesada por compartilhar da mesma omissão que aqui nos fez chegar.
Mas se a todos nos há de tocar esse olhar litorâneo que segrega o interior a paisagem de adereço e férias de memória distante, a incessante cobertura televisiva merece atenção e dura crítica.

The way to the future.jpg

O jornalista Paulo Ferreira lançou a pergunta no seu feed de Facebook: Em que circunstâncias é legítimo mostrar um cadáver numa reportagem? Nunca? Por vezes? Quais? Vale a pena debater, não?

O debate, num campo onde a agressividade não é pauta rasteira, vale sempre a pena, já as circunstâncias que legitimam o facto ocorrido são tão poucas que, neste caso, não excepcionam a regra.

Nas diversas respostas que li à pergunta colocada surgia muito a versão alternativa dos factos – que até ouso chamar de alterne na resposta que dei – de que, como a foto vencedora do ano passado do World Press Photo, do assassinato do Embaixador Russo, mostra um cadáver em meio noticioso, justifica a reportagem que se assistiu aqui em Portugal.
Se o absurdo não doesse tanto, a inversão de posições era assustador.
Uma é um acaso em ocorrência, condenada in extremis – publicado como notícia de momento -; a outra é a exploração de notícia de momento explorada in extremis onde a condenação nem parece ser uma ocorrência.

E aos mais ferozes críticos ou defensores deste jornalismo posso elencar a foto do pequeno Alan Kurdi, afogado na orla da praia, onde o instante captado (até criticado pela sua encenação) narrou toda uma história e não um só momento de horror, revelando uma crise Humanitária sem precedentes no Mundo.
O “Falling Man” das Torres Gêmeas, foto banida enquanto a razão do luto não assistiu a Sociedade e cujo documentário, de 2006, resguarda-se nesse choque que ainda provoca.
E nessa sanha vingativa da cólera Humana, onde num passado se mostravam os assassinatos de Gaddafi ou Sadam Hussein em prime time, porque não o de Bin Laden?
Quem sabe seja esse o rumo ao futuro.

Mas este jornalismo mediático do imediato não coube apenas à TVI. Também a Sic – numa vergonhosa entrevista exclusiva com um Pai que havia acabado de perder a mulher e as filhas adolescentes -, para não falar no grupo Cofina e suas filiais que fazem da morte um modo de vida, partilhando a primeira vítima conhecida ainda mesmo sem as autoridades informarem a família ou congratularem-se pelas audiências recorde em dia de desgraça, pautaram estes últimos dias de inenarrável cobertura (pouco) jornalística.

antes escrevi algo que responde a este tipo de jornalismo, lembrando a CNN e as non-stop Breaking News, mas a pergunta “como olharia uma sociedade de necrófagos em busca da próxima História Humana em que aquilo que verdadeiramente busca é a tragédia?” parece ter resposta nesta cobertura sensacionalista (para dizer o mínimo) de Pedrógão Grande.
Ela não é mais que um reflexo da Sociedade voyeurista da satisfação imediata, do prazer secreto e critica pública.
Dos grupos e empresas que precisam das audiências, shares e valores acrescentados para sobreviver num mundo em perpétua crise de valores.

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