Vestido de Divórcio

Buzina de automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de vidraças partidas. Silêncio. Assistência. Silêncio.
Frente a todos, no plano real, ela, Dilma.
Sentada na arquibancada, nesse coro leviano da memória, Vana.
Distante, alucinante e fugas, Rousseff.

Vestem de branco. Numa mácula transversal à verdade de cada qual.
Simbiótico entre elas uma faixa, verde, amarela, azul, raio de branco, ordem e progresso coroando nomenclatura de pingentes em ouro e diamante que fazem o trespasse do momento.

Se inicia o som, numa vitrola inexistente: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas…” – Dilma, plácida, lembra flash de clarão, um Fiat Elba.
Tropeço ou tropeção, declaro ou alucinação, face a ela a memória de um passado ido e agora recordado.

Dilma: É golpe!
Vana: Golpistas!
Rousseff: Culpada és…

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Quem sois? – inquire Dilma na dúvida da certeza certa desse golpe dado na iminência da aceitação. O valor de algo que essa Mulher Guerreira, lutadora da Pátria Brasileira, a Rousseff, sabe e responde. Culpada és, foste e serás.

Vana, enfaixando-se por aquele que, como Iscariotes, a traiu na senda repetida da substituição, vê-se ferrada pelo pingente que logo após sumirá.
A prova de um crime que, dirão, não ocorreu.
Ela, em grito dessa mácula branca, numa roupa manchada, grita aos que a traíram. Golpistas!

Agora, nessa névoa que se faz clara, entre o delírio da defesa orquestrada de um golpe que repercute a força anímica que a dinâmica de algo inexistente, Dilma compreende. É golpe!
Golpe de algo que a não ter sido o foi quando um carro a atropelou.
Golpe que a dizerem que não é, agora é mesmo.
Golpe que a – “Pátria amada Brasil” – sofreu nos anos do PT.

Dilma é Vana, é Rousseff. São apenas uma. Passado, presente e sintoma futuro.
São o juízo da traição da faixa que tinge a intriga que trinta moedas compraram e um crime tentaram apagar.
É o espelho idolatrado da mentira que se nega para ser mais fácil aceitar.

Nota:
Para quem desconhece, a trama deste texto é baseada na dramaturgia ‘Vestido de Noiva’ de Nelson Rodrigues, jogando com três planos temporais em sucessão sobreposta.

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