Linchamento Diplomático

Eu sou o primeiro a defender que as regras devem ser quebradas. Já o protocolo, nunca.

Por protocolo, num sentido lato e abrangente, refiro-me à sua definição mais genérica, muito em voga na computação, o código (linguagem) utilizado entre dois sistemas (computadores) para se comunicarem entre si.
Simplificando, nunca se deve quebrar a regra de comunicação entre duas pessoas para partir para uma agressão gratuita ou injustificada. Dito isto, muito menos quando a mesma é física.

Inicio este texto dando uma explicação já de si objectiva pois, em meio de uma polêmica complexa, penso que aquilo que poderia ter sido uma situação pontual, terrível em si mesma, deveria ter sido resolvida de forma discreta, ela mesma diplomática, sem que se estivessem a criar ódios públicos e ressentimentos onde o Estado Português, Membro da União Europeia, está face a um verdadeiro incidente protocolar sem dele ser verdadeiro interveniente.
Sim, estou a abordar a polêmica em torno da agressão a Ruben Cavaco pelos filhos do Embaixador Iraquiano em Portugal, ocorridas em Ponte de Sôr.

Passando a narrativa abjecta que alguns partidos políticos extremistas fizeram nas redes sociais – exigindo justiça em praça pública para os dois menores de idade, infringindo eles também a lei ao revelarem dados pessoais de cidadãos estrangeiros em território nacional, além de divulgarem fotografias suas – há que julgar de forma punitiva a forma como a própria imprensa, e por sua vez as próprias autoridades portuguesas, permitiram e propagaram a informação relativa a esta agressão.

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Toda a história que envolve os três adolescentes é em si muito mal contada. Seja porque não parece plausível existir uma agressão tão violenta por causa de uma conversa mal entendida em torno de uma tatuagem – como contaram os gémeos iraquianos na sua entrevista à Sic -, seja por uma suposta quezília amorosa que envolveu um dos rapazes e que mais tarde, num ajuste de contas, se resolveu com pontapés que levaram um adolescente ao coma.
Em bem da verdade, nenhuma razão, por mais justificado que seja o mote por trás da mesma, merece que a sua resposta seja violência física. Nem o álcool, como referido na entrevista, justifica tal acto.

Num ápice, pois vivemos num mundo onde o viral se sobrepõe à razão do psicológico, a notícia divulgou-se pela impunidade diplomática de que os jovens usufruem. Chegou-se a dizer que os mesmos, em detrimento do coma de Ruben, haviam saído de Portugal.

Jornais são papel. Papel custa. E quando não o são, são páginas de internet, com likes, gostos e feeds a alimentar que sustêm complexas máquinas com muitas pessoas a serem também elas alimentadas.
Notícias que provoquem vendas, aumentem cliques, visualizações, ainda que não haja confirmação sobre a veracidade do que se publica, vendem bem. É o mal necessário que alimenta o ódio complacente que a Humanidade gosta.
Já as autoridades portuguesas, essas com uma responsabilidade muito maior, não deveriam ter permitido o alcance que tudo está a tomar.

No exacto momento, justo quando dois cidadãos estrangeiros se apresentam com passaporte diplomático para apresentar queixa de agressão física, sendo eles menores de idade, estando embriagados, não compreendo onde falha a cadeia de comando para, desde logo, chamar as autoridades competentes no Ministério dos Negócios Estrangeiros para que a situação não tome as proporções que tomou.
Augusto Santos Silva deveria, de imediato, ter saído das suas férias, do seu posto de serviço fixo, contactado a Embaixada do Iraque conversado com o pai dos dois jovens e os mesmos serem trazidos para Lisboa, assim como, de forma discreta – dada a violência da agressão – o Embaixador Iraquiano ser dado como persona non grata em território Português.
Esta não é uma opinião pessoal, isto é protocolo diplomático implementado de forma rigorosa.

Agora, com propagandas televisivas, exclusivos de entrevistas, um cidadão português que desperta de um coma sem saber bem o que lhe ocorreu, mais parece que Portugal está a abrir o precedente para que se crie um verdadeiro incidente diplomático para se começarem linchamentos diplomáticos sem causa ou razão.
O extremismo político já brota na Europa dos refugiados, ocorrer isto num país pacato como Portugal apenas reforça um sentimento de revolta Europeu de que algo não vai bem numa Europa plural de aceitação.

Que a jovem democracia Portuguesa logre encontrar rumo e ponto de encontro para que isso não ocorra nessa que é, todavia mais, uma recém e livre democracia Iraquiana.

Quero juntar uma nota pessoal, além de repúdio total, pelas agressões ocorridas.
Nenhum acto, seja ele qual for, merece que se invoque a violência física como resposta para se encontrar uma solução.

As críticas que aqui deixo, sobretudo pelo alcance e importância que a notícia teve, prendem-se não porque uma agressão não tenha a sua importância e não deve ser levada às últimas instâncias judiciais, mas antes pelo racismo e xenofobia que se está a gerar não pela questão diplomática de que os jovens, a poder usufruírem de imunidade, que não utilizaram, mas antes pela sua nacionalidade.

A celeridade judicial Portuguesa é mais do que lenta, e como se está a assistir aqui, num caso que pode trazer complicações a nível Internacional, não está a ser dada uma resposta à altura de um país centenário com uma excelente fama diplomática a nível mundial.
O meu texto abstém-se de comentários de índole político partidária e pretende fazer razão crítica de algo que deveria – ainda pode – ter uma conclusão saudável para todos.

Espero que o Estado Português, e já agora a imprensa, deem tanta atenção positiva ao agredido como estão a fazê-lo com os seus agressores, ou que pelo menos o deixem voltar a ter uma vida num anonimato de tranquilidade onde a agressão física não faz parte do seu dia-a-dia.

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