putativo facilitismo social

Facilitar é bom. É tornar simples algo que pode ser complicado.
Permitir o acesso a algo que antes era inacessível ou proibido a todos.
Já fazer ideologia rente sobre a responsabilidade inerente de cada um, remetendo-a à culpa é ser um facilitador.

Não é uma razão teológica.
Pelo contrário. É uma questão em que a moralidade individual deve, além de pertencer a cada um, ser ela também algo pertencente à comunidade.

A 20 de Julho de 2015 a Grande Reportagem da TVI abordou a temática dura, difícil e contraditória do endividamento unipessoal. Das falências em causa própria, das insolvências individuais, e deste País de pessoas endividadas até ao suicídio.
A dívida como ela é.
Ao ser verdadeira – e brutal; a reportagem era, ela também; unilateral.
Sim, as dívidas advêm deste demónio cego de cobrança fiscal, de uma máquina mais eficaz que a capacidade Humana em existir, ou de simplesmente saber que a existirmos, somos Humanos.
Mas a grande verdade, na grande maioria dos casos, é que as dívidas elencadas no programa se prendiam a pessoas cujas vidas foram vividas através de rendimentos fictícios.

Advogado do Diabo ou estará ele a esfregar um olho?

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“Vivemos do crédito fácil”, dizia Victor Moura Pinto, o jornalista que fez a reportagem. E tem toda a razão.
Não é uma afirmação completa e abrangente, discriminatória do caso que justifica a regra, mas é uma consequente verdade.
Olhar para a últimas décadas Portuguesas é perceber bem isso.

Fomos um País de atraso de ensino com pretensões de riqueza educada.
Como uma depende da outra, na correcta gestão patrimonial e da sustentabilidade monetária individual, à responsabilidade inerente daquilo que é nosso, relega-se o cunho de culpa pela omissão.
Em última instância faz-se o jogo da humilhação comunitária. Apontam-se dedos aos caídos em desgraça, como se eles não fossemos também nós.
E a entreajuda é algo que muito poucos praticam.
Não saímos do nosso reduto de facilitismo existencial para facilitar a vida a quem, a não sermos nós, podíamos bem ser.

Mas isto tudo remete-me para uma interrogação pessoal, daquelas que sempre me bati e estranhei não sentir ser reciproca entre ‘muitos’ iguais; o porquê de se facilitar apenas para um proveito próprio e não para o proveito de outrem.

Penso que a minha inocência tenha resposta no crime descrito no artigo 335.º do Código Penal: Tráfico de Influências.

“1 – Quem, por si ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, solicitar ou aceitar, para si ou para terceiro, vantagem patrimonial ou não patrimonial, ou a sua promessa, para abusar da sua influência, real ou suposta, junto de qualquer entidade pública, é punido:

a) Com pena de prisão de seis meses a cinco anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal, se o fim for o de obter uma qualquer decisão ilícita favorável;
b) Com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal, se o fim for o de obter uma qualquer decisão lícita favorável.

2 – Quem, por si ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, der ou prometer vantagem patrimonial ou não patrimonial às pessoas referidas no número anterior para os fins previstos na alínea a) é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa.”

Porque se é o Estado que, através do seu Moloch, nos estripa da dignidade individual, que se pode dizer quando alguém, mesmo que por interposta pessoa, nos quiser ajudar?
É que lendo a alinha 2 desta lato artigo penal, não corremos o risco de, ao sermos facilitistas, estarmos todos a traficar influências?
É que neste país o Estado somos todos nós. Ou se não, quem o é, os cobardes cobradores?

A licitude de um acto tem mais que ver com a responsabilidade que cada qual assume ao praticá-lo do que com a inerente culpabilização de génese religiosa que uma alinha jurídica lhe impute. Ou a verdade da responsabilidade Social que deveria existir é essa mesmo: a entreajuda não é uma facilidade. Nem uma liberalidade.
É um acto consciente, praticado de forma continuada, por uma vontade real, não por culpa ou objectivação da vergonha que a restante sociedade, a quem se lhes imputa a putativa responsabilidade criminal de traficar influências, tem e desiste de ser melhor do que pode ser.

É que isso apenas e somente nos torna facilitistas do egoísmo.

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