O reflexo de Narciso

Vivemos entorpecidos num misto de realidade e crença unitária em que a verdade é em si mesma uma mentira feita fé.
Acredita-se na solução miraculosa que nos libertará feito um estupefaciente de uso imediato.

Mais não há tempo de espera.
É o aqui e agora.
O reflexo pelo qual nos apaixonamos.

Não fosse a tragédia ser Grega, quase não existiria esse sentido erudito nos sucessivos paralelismos que se constroem em tudo aquilo que uma ideia pagã do Mundo Clássico nos serve como memória da Vida já antes vivida.
Não é a verdade dos factos, mas a sua imutabilidade concreta que nos espelham a realidade do que vivemos e não queremos ver.

“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.”

A frase é atribuída a Winston Churchill, mas poderia ser dita por alguém que tivesse mergulhado no seu próprio reflexo de feiura e sabido ver que por detrás de um rosto há uma mente que pratica a confrontação entre aquilo que é e pode vir a ser.
Acto de sequência e consequência.

DEMOCRACIA2015.jpg

E a verdade lancinante é essa. Achamos que pela ‘nossa’ democracia ser o, considerado, melhor entre os piores, que quem vive nos restantes sistemas de Governação é infeliz por não ter a ‘nossa’ Liberdade de escolha e opção.
Supomos que vivem em opressão, sonegados à sua miserável existência.
Nós, tal como Narciso, o da mitologia, podemos ver o nosso reflexo. Eles, os outros, não.

Só que a verdade factual não é assim tão concreta.
Ou a ser, é mais próxima do desfecho erudito que um mito nos traz.

Pensar que a maioria dos cidadãos que vivem em Democracia preferem a estabilidade de viver entregues a um regime que os governe na base de terem um emprego, horário fixo, garantia financeira, onde o risco é assegurado, e a equidade é a base da igualdade, mais parece que nos estamos a referir a uma política ditatorial em que um líder supremo providencia tudo em prol de todos.
Não existe um individualismo na escolha. Nem sequer existe um individuo. Há um todo.
Alegre e feliz (?).

Mas como esse reflexo é tão inebriante e profuso, a escolha da obrigação é relegada a um voto que, aqui, nem sequer tem o cunho de obrigatoriedade.
A desresponsabilização do individuo é repartida pelo todo.
E nesse momento diz-se que a Democracia falhou. Narciso afogou-se.

Nem por isso.
Por nada.
Meramente se constata que o estupefaciente político não se fez ensino Democrático.
A regeneração faz parte da limpeza que um politicamente correcto tem.

Olhando para a erudita Grécia actual, sem interjeições mitológicas ou fazendo jus de um Herói afogado pelo seu amor próprio, pergunto-me qual a licitude moral – se é que isso existe; da existência de um partido NeoNazi num regime Democrático?
Aceitação é algo meritório, assim como o acto de perdão consagra-se ao Divino, mas permitir que uma ideologia que se propôs à erradicação de uma raça com o fundamento higiénico é algo que não deveria ser sequer ponderado.

E dito isto há que ponderar em muito a maioria dos extremismo assumidos no mainstream democrático com um pleno direito de voto e voz na escolha popular.

É regressar à tragédia de sermos todos Narciso, apaixonados pelo nosso reflexo, pela nossa perfeição. Pela ausência de falhas, quando na verdade aquele que nos mira é o que nos mata.
Pois a ser tão igual a nós, é em tudo diferente.

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