Cultura do Populismo

Existem determinadas identidades que pela sua exposição pública de causas fracturantes como temática abrangente dentro da Sociedade se assumem como Cultura sem o ser.
Se antes neguei, veementemente, que não existe a Cultura do Estupro, hoje venho demonstrar que não existe uma Cultura do Populismo.

Há quem nos queira introduzir nesta larga metáfora ideológica de que se vive numa Cultura Populista, de que a facções extremistas são-no por via Cultural, como se a Sociedade, torpe e enebriada em si mesma, vivesse nesse contentamento descontente em ser feliz na miséria compartida.
Volto a reafirmar, talvez mais explicito que antes, não se pode considerar algo cultural quando se aplica apenas a um grupo de indivíduos. Nesse caso, não só para o estupro, diríamos que os movimentos terroristas são fenómenos culturais. Não são e sabemo-lo.

Culpar o todo pelo individuo apenas gera mais revolta e dificulta a sua erradicação.

Então que fenómeno é este do populismo que parece dominar o panorama cultural actual?
Na verdade nem sequer é algo novo. As suas origens remontam a 1870, aos Narodniks Russos, intelectuais militantes que pretendiam basear o poder e o controle colectivos de comunidades rurais na democracia directa, distante da burocracia e do autoritarismo Czarista. Este populismo Soviético foi mesmo a base do Comunismo que em seguida surgiu.
Claro que o populismo contemporâneo está, em grande medida, ligado à herança Latino Americana dos grandes líderes de massas contra o poder das estruturas oligárquicas na mão da aristocracia rural.

Importa referir que o Populismo não tem latitude política sendo tanto de Direita ou Esquerda, mas remetendo sempre a participação directa do povo como sua força motriz.
Ele disfarça-se de democracia mas dela está longe. Os ditames práticos dizem-se assegurados mas a separação real entre os poderes que a assistem vêm-se atropelados com um único objectivo: a manutenção política do líder carismático no poder. Depressa o mesmo povo que se sentia assegurado pelo seu voto se vê dele expropriado em detrimento do projecto político do grande líder.

Certo que a Europa não é a América Latina, nem Espanha a Venezuela, mas o efeito populista aqui se reproduz através da chantagem política pelo imediatismo inconsequente.

Triunfo do mal.jpg

Assim, nessa ideia que rebato mas parece existir, surge a Cultura do Populismo. Como a permanência política já não se baseia na premissa eleitoral mas antes no agrado popular, os políticos tornam-se inconsequentes como meio de sobrevivência pessoal. O Brexit é um flagrante delito. David Cameron apostou tudo num referendo populista para rebater ele também a horda populista que assola o Reino Unido. Saiu-lhe o tiro pela culatra já que o voto directo sem filtro de ponderação séria, muitas vezes inconsequente como é o populismo em si o é, deu no que deu.
Mas nem tudo pode ser mau.

Este naufrágio unido que se vai desagregando, separando um Reino em pedaços, levanta questões há muito por responder.
Parece que o Reino não era assim tão unido, nem a premissa da União estava, desde logo, estável. A escócia havia referendado anos antes para ficar como membro de um Reino que ficaria, a la longue, na União Europeia, não fora dela. A Irlanda do Norte, por razões geográficas e económicas pensa em abandonar o seu Reino também.
Parece que a jangada da Medusa é mais real que apenas uma pintura sobre a mesma.

Só que o efeito medo, na consequência real e não apenas imaginária do que pode vir a ocorrer – essa senda que o populismo dissemina como cultura – surtiu efeito.
A Espanha não é a Venezuela, mas os partidos populista que por lá habitam, sobretudo à Esquerda, de lá emanam. Eles, nomeadamente o Podemos de Pablo Iglésias, tudo fez para agradar um público alvo estudado à exaustão de uma precisão académica. Falhou.
Nem a sua união com uma Esquerda Unida impediram que a sua coligação ficasse em 3º lugar, destronado por um Partido Popular reforçado e um Partido Socialista menor mas ainda superior.
O medo separatista face a uma catástrofe financeira, recordando o efeito dominó de 2008, têm mais importância na vida directa do individuo do que o populismo do voto pela escolha aparentemente mais fácil.

O clamor pelos referendos a favor do abandono da União Europeia, gritados pelos partidos extremista, em odes populistas, apenas surtem esse efeito retroactivo da memória catastrófica da austeridade que o passado trouxe e que agora se assiste mal um voto em referendo – ainda sem ter sido tomada alguma decisão oficial – causou.

Neste momento sinto que há muita cultura populista e pouca cultura política.
É que se uma não existe, de facto, a outra a existir, poucos a praticam ou sequer sabem da sua existência. Por tal reclamam dos seus Direitos sem compreender que para eles existirem existem obrigações e garantias. Enquanto isso não mudar, a União seguirá desunida rumo a uma tragédia cultural.

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