Manual do Político Contemporâneo

Face à demissão em causa própria, nessa honra em manter inseparável “o direito à expressão da opinião e palavra” do foro público e privado que o, agora, ex-Ministro da Cultura expressou na sua carta ao Primeiro Ministro, nada mais oportuno que alinhavar um Manual para o Político Contemporâneo.

Vamos ao essencial:

#1 O Político Contemporâneo não é Moderno, é actual.
Usa as redes socias, fala mais rápido do que pensa, contradiz-se e atropela sem nunca se justificar.

#2 O Político Contemporâneo é a voz titereira do seu partido.
Ideologias são o mote existencialista que lhe pagam a campanha até chegar ao assento parlamentar que ocupa.

#3 O Político Contemporâneo vive da carreira pública onde ingressou, virtude da imagem criada em torno da sua eterna juventude.
O seu remoto passado civil constrói-se na biografia curricular que mais tarde se há de criar, nesse presente como parasita que se renova na saltitante posição pública política que ocupa.

#4 O Político Contemporâneo tem a certeza que a sua política correcção está instituída nos Direitos Fundamentais consagrado na Constituição do seu País.
Nunca a leu. Para isso existe a Wikipédia e versões reduzidas no Youtube para serem consultadas em caso de desconhecimento de causa.

#5 O Político Contemporâneo não é contemporâneo, é perpétuo.
Sempre assim foi. E sempre assim será.

Resumido o essencial do que até poderia ser um verdadeiro Manual do Político “Extemporâneo”, a verdade é que as cinco alinhas que alinhavo encaixam-se, quase, sintomaticamente em todos os políticos da nossa praça.
Esta questão do político tentar viver num imediatismo, tentar ser sempre a voz do dono, falando na ideologia sem a contradição natural, ingressando no carreirismo construído desde que é um ‘jota’, gritando bordoadas em defesa da dita Democracia! sem de democracia nada saber, são uma caracterização do individuo político demasiado frequentes.

Mais a mais no caso do Ministro que agora se demitiu.

Quando caracterizei o Johnsoaressyndromet como a Síndrome de Estocolmo de João Soares, referia-me a algo que pode e atinge a maioria dos políticos actuais.
Um político, sobretudo quando ocupa um alto cargo público, não pode confundir o que é a sua vida privada e intima com aquilo que é a sua vida pública e notória.
Tudo o que ocorre entre quatro paredes, na reclusão do nosso lar, entre a família, com os nossos verdadeiros amigos, é algo que pertence à esfera intima e privada e onde tudo (ou quase tudo) pode ser dito e acontecer.
Outra coisa muito diferente, nomeadamente para um ocupante de cargo público de relevo, é ter um comportamento de cariz íntimo e privado numa esfera pública e notória. Evidentemente que isso é, desde logo, condenável.

Só que aqui entra o factor actual do político contemporâneo, o uso desbravado das redes sociais.
As redes sociais são uma espécie de quarta parede de vidro do nosso espaço íntimo. São porque muitos decidimos ser.
Nesse lugar, nesse espaço social em rede, vamos publicando ideias, textos, opiniões, contraditório, fotos, eventos. Tudo e nada.
Mais de nada do que tudo de tudo, e por vezes uma vontade em dar umas bofetadas.
E enquanto qualquer anónimo o poderia fazer, ser considerado um brutamontes, um imbecil, idiota, estúpido ou qualquer outro adjectivo depreciativo, um Ministro não o pode.
Ele, além de representar um Governo, é o espelho da Sociedade Civil que elegeu o Governo que representa.
Ele é, em parte, uma parte de nós.

E aqui chegamos do tabefe ao beijo.

KISS.jpg

O item #4 é porventura aquele que mais vezes se torna omisso no Político Contemporâneo.
Nem aquele que mais diz cumprir os preceitos da sua Constituição, seja ela a de 1976 ou a revisão de 2005, poderia ter feito o que fez.
Quando o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano a 17 de Fevereiro de 2016 beijou-lhe a mão, o que, face à separação de entre o Estado e a Igreja em Portugal, faz deste País um Estado Laico. Ou seja, o novo Presidente teve uma atitude tão condenável quanto o ex-Ministro da cultura.

Se a opinião pública se chocou com a vontade de João Soares atentar, por escrito, em ir dar uns tabefes contra quem o criticava – mesmo sabendo de antemão que tudo se tratou de uma quezília Queiroziana nos tempos modernos – ter um Presidente que se rebaixa frente a outra autoridade máxima de um País, beijando-lhe a mão, quebrando o protocolo sem que exista nenhuma necessidade que não um capricho pessoal de índole religiosa por parte do cidadão Marcelo, é motivo para choque e motins de demissão.
Ou afinal não? Um beijo é sempre um beijo.

#6 O Político Contemporâneo beija tudo o que lhe coloquem à frente.
Bebés, Mulheres, Papas, botas e derrieres

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