Bofetadas, ascensões e a RTP

Quando o #bofetadagate se gerou nas redes virais com um duelo pirro que deu numa vergonhosa lição moralista do Primeiro Ministro aos seus Ministros sobre o comportamento em mesas de café e redes sociais, nada poderia fazer esperar aquilo que antes o seu ex-director de campanha, Ascenso Simões havia de escrever e em como isso se poderia encaixar numa aposta ganha por parte da RTP, a televisão pública, ao perguntar às pessoas o que levariam caso fossem elas obrigadas a fugir num cenário de guerra e serem refugiados.

Ascenso Simões, tal como um cão de fila que se demitiu do Governo que obliquamente elegeu, vem defender João Soares do seu par de bofetadas por dar.
Na sua injustificada justificativa lamenta “esta vida liofilizada onde a grandeza do discurso político viril, marca dos grandes parlamentares e homens de letras, se evaporou da vida pública“, uma passivo-agressividade que ilibaria João Soares de poder vir a ser exonerado do cargo.
Se num lado Ascenso ascende a um patamar verdadeiro, onde o politicamente correcto se tornou sintoma do seu significado directo sem qualquer tipo de análise, analogia ou capacidade de interpretação, por outro, a sua bravata em defender algo como um gesto de ignorância por parte de um Ministro que, claramente, confunde a vida privada com a vida pública não enriquecem o debate em torno do que poderia ter sido um fait divers e acabou por se transformar numa lição moralista.

REFUGIADOS.jpg

Mas como a moral anda toda ela enviesada e o politicamente correcto já só e apenas serve para a violenta critica sem esse necessário debate, em simultâneo com as bofetadas por dar de João Soares, a pseudo intelectual artista Joana Vasconcelos levava a sua bofetada por aquilo que poderia ser a sua chance em dar um estalo na Sociedade.
A RTP lançou uma inteligente e capaz campanha sobre #esefosseeu nós os refugiados a fugir de uma guerra, que traríamos numa mochila, colocando a pergunta a diferentes personalidades públicas.
A resposta que Joana Vasconcelos deu rápido se tornou viral, inflamou a opinião pública e fez mesmo questionar se a RTP, sendo ela a televisão que a todos representa, não deveria ter censurado a mesma?

Vamos por partes, e resgatando essa ascensão do discurso liofilizado que Simões falava.

A verdade é que nos dias que passam todos esperamos a resposta politicamente correcta.
Joana não a soube dar. Joana não sabe ser refugiada. Sinceramente, nem eu, imagino, saberia.
Se por um lado olhamos os refugiados como uma espécie de indigentes saídos desse livro de memórias passadas, em branco e preto, extraído de uma segunda guerra mundial, onde a tecnologia máxima eram as ondas de rádio e os telegramas escondidos, a verdade é que os refugiados que nos chegam também vêem televisão, têm iPhones, jóias e outros acessórios tão, aparentemente, descartáveis como tudo aquilo que a Joana falou.
A questão que se coloca é o sentido de oportunidade. Se por um lado parece relevante que alguém no meio de uma família que esteja rumo a algum lugar leve um meio de comunicação com um carregador, por outro será muito mais relevante levar, além do dinheiro possível, toda a documentação, medicação em uso e hipotética, água e algumas peças de roupa assim como um impermeável ou alguma peça de roupa multiusos, de preferência quente, para que se enfrente o incalculável. Evidente que os básicos necessários como escova de dentes, desodorizante e os seus complementos são sempre bem vindos, mas não será isso que nos salva a vida.

Claro que Joana Vasconcelos se mantém, como não poderia deixar de ser, na sua pose de posse. Ela está formatada para a politica correcção que nos sustem num mundo artificial de quem vive atrás das telas dos iPhones. No desagrado moral onde os candeeiros de tampões são censurados nos Palácios de Versailles. Onde os subsídios são dever público como incentivo aos que já chegaram e não para os que precisariam para ser reconhecidos no anonimato.

A RTP não errou. Fez verdadeiro Serviço Público, mostrando sem censura ou edição aquilo que a Joana pensa.
Assim como João Soares ou Ascenso Simões o fizeram por iniciativa própria, mostrando em como a transparência numa Democracia é sempre a melhor opção.
Resta é a Sociedade saber optar também.

Entretanto toca o telefone com nova mensagem: “João Soares pede demissão de Ministro da Cultura
Ao que parece, ainda que invocando o que chama “solidariedade pelo Governo” e “respeito com os valores da liberdade”, optou por uma saída.
Volta Hans Nurlufts, estás perdoado.

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