Staline, Trotski e o capitalismo Angolano em Portugal

Quando na fatídica tarde de a 20 de Agosto de 1940 Leon Trotski grita, ensanguentado com um piolet de alpinismo cravada no crânio, “Não o matem! Esse homem tem uma história para contar!”, referia-se a Ramón Mercader, o seu assassino, agente do Comissariado do Povo para Assuntos Internos, o NKVD da URSS, a mando do seu inimigo político Josef Stalin.

A história que ficaria por contar seria justo essa, a quezília ideológica entre ambos que transcenderia a morte grotesca de Trotski no seu exílio Mexicano.

Quando Lénine morre a 21 de Janeiro de 1924, e apesar da sua preferência na linha de sucessão ser Trotski, a carta que conduziria o preferido à liderança partidária é interceptada pela oposição stalinista. Dá-se então o primeiro triunvirato, a Troika, instalando-se Staline com plenos poderes sobre o Estado e a Organização Partidária.

Só que a divergência entre ambos não era apenas o afecto pelo líder que agora partia, do ponto de vista ideológico a luta político-partidária era mais dissonante. Enquanto Trotski pretendia seguir o princípio da “Revolução Permanente“, Staline unificaria toda a União Soviética com a política do “socialismo em um só país“.
Apesar da origem política ser a mesma, os seus ideais e funcionamento são distintos.
Enquanto Trotski parte para uma agressão contra o capitalismo, nivelando todos por essa igualdade social numa escala internacional, Staline vivia numa buracratização Estatal do controlo central, partindo do modelo global de que um país conquistaria os restantes pelo seu exemplo.

Apesar das suas teorias ainda restarem, são mero artifício ideológico que teve um fim moribundo, servindo de alicerce ao capitalismo selvagem.

Quando a 11 de Novembro de 1975, o primeiro Presidente de Angola, o nacionalista Dr. Agostinho Neto, em nome do povo Angolano, proclamou a independência de Angola, transferindo a soberania de Portugal para o Povo Angolano a confusão pela escolha democrática iniciou-se.
Neto pertencia ao MPLA, um movimento de Esquerda Marxista-Leninista, enquanto outras forças, que mais tarde sairiam derrotadas quer na guerra civil, quer politica, eram de um espectro mais ao centro.

A sua permanência num poder que, apesar de denominado Democrático desde 1992, ano das primeiras eleições livres, tem sido criticado por não praticar uma política deveras centrada num Socialismo de Esquerda.
O seu eterno Presidente, desde 21 de Setembro de 1979, José Eduardo dos Santos, tem regido o país como uma autêntica plutocracia autocrática onde o nepotismo impera.

Claro que o facto da existência de jazidas de petróleo, a investida capitalista ocidental e todas as consequências da inversão colonialista na vontade de ascensão social pesam na forma como a Sociedade se tem construído para se mostrar mais igual que justa frente a um Ocidente padronizado.
Nisso Portugal e as políticas do abandono sistemático, da correcção política Europeia, da maestria das relações diplomáticas e dos interesses instalados no capital abrangente, tomam partido para tudo o que nos interessa actualmente.

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Angola vive os dias finais que a ex-União Soviética viveu e que Cuba agora vive ao se encontrar frente à realidade do isolamento dos Direitos do Individuo.
Se à mulher de César não basta parecer séria, há que sê-lo também, a Angola não basta parecer democrática, tem de sê-lo também. E é aqui que o julgamento tingido de 17 activistas, acusados de atentado contra o Presidente por lerem o livro “Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura — Filosofia política da libertação para Angola”, escrito pelo jornalista Domingos Cruz, entra.

Angola não vive uma Democracia plena onde a Liberdade de Expressão existe.
Vive essa fantasia idealizada que o petróleo camufla, do néon da baía de Luanda, das palmeiras importadas de Miami, da cópia rocambolesca do capitólio Norte Americano.
Vive da hipocrisia política que todos nós, aqui em Portugal, na Europa, no mundo Ocidental, permitimos.

Todos não.
O Bloco de Esquerda e bastantes vozes dissonantes pronunciam-se contra aquilo que se passa em Angola. Denunciam o que por lá se vive. A corrupção de um sistema podre.

Só que a nobreza do Bloco de Esquerda em se unir às dissonantes vozes que apelam ao fim da Ditadura que se instalou em Angola tem o mesmo valor do piolet de alpinismo cravada no crânio de Trotski: é ardil político mascarado de superioridade moral.
Mais, enquanto o PCP mantém a sua estratégia vergonhosa de defender as ditaduras, unindo-se aos interesses capitalistas Ocidentais dessa Social Democracia que se diz respeitadora da Independência dos Estados Democráticos, vemos o Partido Socialista manobrar eticamente a questão, sendo condescende enquanto Governo e condenando enquanto partido.

No final resta-nos a moral de Rafael Marques. Esse, genuinamente Angolano, expõe consequentemente e de forma corajosa e sem subterfúgios, a situação do seu país.

imagem retirada do Expresso

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