O Bom Alemão

Agora que um novo executivo toma posse de uma derrota feita vitória, nada melhor que lembrar o que a 31 de Julho de 2015, em plena época eleitoral, se professava como Fé Coligada, nessa certeza de um Portugal que mais podia mas menos acreditava.

Isso ou que numa escolha de imposição alterna se iria ver espelhada pelo voto popular em bonecos de papel que rezam consoante aquilo que acreditam para fazer valer as suas vontades partidárias.
É que no final das contas, na Europa dos emolumentos, que não é um Bom Alemão?

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Por volta do ano 1517 um pastor protestante de Eisleben na Alta Saxónia, apresentava o seu protesto acerca das indulgências Papais que se compravam e vendiam como livre comércio do perdão Divino.
Eram as ’95 Teses’, onde Martinho Lutero, o monge Agostiniano feito Protestante, desafiava os ensinamentos da Igreja Católica quanto à natureza da penitência, a autoridade do Papa e a utilidade das indulgências.

A bem da verdade a Igreja Católica de então tinha convertido o pecado numa forma de negócio onde a culpa era a causa de perdões comprados a preço de ouro.

Quanto maior o perdão, maior a penitência ‘dourada’ a ser depositada nos cofres da Católica Igreja da Eterna Salvação.

Claro que a voz, proeminente, de Lutero, causou impacto na Igreja. Em 1520 chegou a ameaça de excomunhão caso não apagasse 41 pontos das suas 95 Teses, tendo, laconicamente, respondido:

“Eu não me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus”
Como tal, no início de 1521 a Igreja, através da Bula Papal “Decet Romanum Pontificem”excomunga Martinho Lutero, sendo considerado um herege e tornando-se um foragido, protegido por aqueles que seguiram a sua Reforma.

A sua reforma, apesar de quebrar com a visão unilateral da Crença como bem comerciável, acabou por ter interpretações extremadas, sendo que Lutero se torna anti-semita no final da sua vida, em oposição a tudo o que pudesse influir em contra a sua visão, também ela, já de um puritano exacerbado e incongruente.

Em ‘Mein Kampf’, de 1926, Hitler credita Martinho Lutero como a principal inspiração anti-semita, derivado dessa leitura pouco teológica, ou do entendimento do fim de vida de alguém que, a ter sido excomungado, se viu ele também, alienado da sua capacidade de ser pertença de alguém.

Independente disso, se se vir, numa perspectiva puramente técnica, retirando a emoção que a consequência lógica de eventos gerou, pode-se dizer que a batalha travada por Lutero contra os poderes instituídos na Igreja Católica de então não eram tão descabidos.
Claro que isto, visto com os olhos e saber de hoje, nos parece quase óbvio.
O céu, a existir, não se compra, nem os nossos pecados, culpas ou erros, se perdoam pela compra do bem material que uma Fé professada nos possa vender.

De qualquer forma, o nosso sentido de pertença, apesar de fazer de nós, em teoria, bons Alemães em teoria, dá-nos uma sede consumista como forma de retribuição e agregação à Sociedade onde nos inserimos.
Podemos dizer sentir uma espécie de desprezo inconsciente por aqueles que não estão dentro do nosso círculo Social, da nossa Fé consumista.
E ai, quando o gasto de todos com o dinheiro dos outros não nos garante o perdão Universal, chega, de novo, um bom Alemão.

Os últimos quatro anos, sob a égide de “um Governo mais Alemão que o Alemão” não são uma mentira desprovida de verdade.
São, na verdade, os traços desse pastor protestante que se esconde dentro de todos nós e sabe que na verdade o pecado não se absolve comprando o seu perdão a peso de ouro, ou pedindo um empréstimo impagável.
Isso é o ardil de um cavalo de Tróia, jogatana de Grego.

A lógica de sentido Germânico existe pela necessidade de regra não por imposição da visão Europeia. Não por determinação de um País, mas porque, a bem da verdade, a questão da promessa prometida e não cumprida já não é desculpável ou não é garante de um lugar no céu.
O anti-semitismo luterano foi apagado pelos próprios protestantes. Já a sua doutrina das 95 teses mantêm-se, sempre e quando o sentido de aplicabilidade da mesma faça sentido.
Na política, à Sociedade de hoje, então, faz.

Mas o passado no passado ficou.
Agora Portugal pode mais.
E o protestante de Massamá mostrou bem, no lançamento da campanha da coligação, o porquê deste País preferir comprar o perdão a recusar uma Fé que lhe imponha a culpa.
Logo em seguida, depois da apresentação formal, foi assistir em Stereo, nos canais privados, os golpes comentaristas falarem na ausência do comprometimento das promessas, ou na sua inexistência.

É que entre um ‘saco de palavras’ ou um ‘saco de números’, nesta Bula Papal omissa, a excomunhão de uns será a vitória de outros.
E esses, a não serem germânicos, terão de aprender, também eles, a ser bons Alemães.

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