The New York Times | adaptação do editorial de 23 de Março de 2020

Já fomos por este caminho antes, muitas vezes. No século XIV, a Peste Negra provocou violência em massa contra judeus, catalães, clérigos e mendigos; quando a sífilis se espalhou no século XV, foi chamada de várias formas: doença napolitana, francesa, polaca e até alemã, dependendo de quem foi considerado culpado; quando a praga atingiu Honolulu em 1899, as autoridades queimaram a Chinatown local. E assim por diante, até os nossos dias, quando epidemias como o Ébola, a SARS e o Zika alimentavam o animus em direção a regiões ou povos específicos.

E aqui estamos em 2020, com asiáticos a serem atacados nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo como supostas fontes da “gripe chinesa”, o “coronavírus de Wuhan” ou simplesmente o “vírus estrangeiro”. Mais uma vez, uma doença misteriosa, que se espalha rapidamente e às vezes letal, exacerba o racismo e o ódio – só que agora com a ajuda do potente megafone das redes sociais.

À medida que o coronavírus se espalhou da sua origem em Wuhan, China, velhos preconceitos anti-asiáticos espalharam-se, desde o jargão “perigo amarelo” que levou ao linchamento de chineses na década de 1870 até aos estereótipos de chineses como ‘sujos e decrépitos’.

Como o britânico The Times noticiou na segunda-feira, sino-americanos e outros asiáticos – considerados pelos racistas como chineses – estão a ser espancados, cuspidos, gritados e insultados de costa a costa nos Estados Unidos, levando alguns membros da minoria maligna a comprar armas de fogo com medo que coisas piores aconteçam com o progredir da pandemia.

Mas os Estados Unidos não estão sozinhos nesta praga de xenofobia. A agência de notícias Kyodo no Japão descreveu incidentes semelhantes de fanatismo anti-asiático onde quer que o coronavírus se faça presente: ovos arremessados contra estudantes asiáticos em Leicestershire, Inglaterra, ou pessoas no Egito a gritar “corona” a asiáticos nas ruas. Publicações vis nas redes sociais fazem ameaças gráficas contra asiáticos por causa do COVID-19.

E por mais que o mistério ainda envolva o coronavírus, não estamos na Idade das Trevas, e realmente não deve haver razão para lembrar às pessoas que este terrível novo vírus não faz distinção entre raças, credos ou nações. Embora faça sentido médico manter distância das pessoas que estiveram numa área com alta taxa de infecção – que hoje efetivamente será qualquer lugar – é estupido e malicioso responsabilizar o povo chinês (ou qualquer outro) pela propagação do vírus, ou supor que eles têm alguma probabilidade em serem os seus portadores.

image by Sébastien Thibault | 2020

Tempos de grande medo e perigo requerem solidariedade, humanidade, sacrifício e esperança, e não histeria ou ódio. Esta deve ser a mensagem dos líderes políticos, sociais, religiosos e corporativos do mundo enquanto procuram encontrar maneiras de lidar com este vírus letal. Muitos líderes fizeram exactamente isso.

É mais do que lamentável, então, que o presidente Trump, alguns membros do seu gabinete e alguns políticos conservadores tenham optado por alimentar o fanatismo usando deliberadamente o termo “vírus de Wuhan” ou “vírus chinês”. Trump, que passou os meses anteriores correctamente a chamá-lo de coronavírus, começou a defender o uso de se chamar “vírus chinês” na semana passada. As fotografias de um texto do discurso que ele estava a ler pareciam mostrar “Corona” riscado e “chinês” escrito pela sua própria mão. Trump twittou o apoio da comunidade sino-americana na segunda-feira, mas os seus muitos apoiantes online já haviam adotado a expressão por ele partilhada.

Ao vincular o vírus à China, o presidente também adotou o argumento de Mike Pompeo, seu secretário de Estado, de que se referir a Wuhan ou à China é uma vingança pela desinformação chinesa e pelo atraso de Pequim em informar o mundo sobre o surto. Como é óbvio, é possível responsabilizar o governo chinês pela forma como lidou com a crise e espalhou informações erradas sem prejudicar uma nação com mais de mil e trezentos milhões de pessoas, ou descendentes de chineses, que moram em nações de todo o mundo.

A xenofobia e os preconceitos que resultam da associação de novas doenças infecciosas a lugares, pessoas ou animais são as razões pela qual a Organização Mundial da Saúde se opôs contra esse facto e, em vez disso, usou termos descritivos genéricos como “coronavírus”. Nomes como Síndrome Respiratória do Médio Oriente (SRME ou MERS), gripe espanhola, gripe suína ou varíola dos macacos, segundo a O.M.S., podem ter sérias consequências, seja provocando uma reacção contra membros de uma comunidade em particular ou provocando o abate desnecessário de animais.

No final, porém, os ódios anti-asiáticos disseminados pelo coronavírus não são apenas o produto da política, mas dos medos profundos que sempre acompanharam o surto de patogênicos letais. Cabe a todos nós tentar, de todas as formas possíveis, permanecer unidos mantendo a compaixão à medida que a doença invade todas as facetas das nossas vidas.

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