Um tiro no escuro

Há silêncios que apenas se quebram por tiros dados no meio da escuridão. Entre o que se supõe ser a calmaria da rotina, a invisibilidade do corriqueiro e a parcimónia do dia-a-dia.
Não que sejamos o futuro indesejado das ambições dos nossos pais, mas a vida torna-se ela em trabalho, casa, trabalho e o escape nocturno para um copo a mais.
Venha noite, venha um tiro no escuro.

Quando a caucasiana normalidade foi posta em causa nessa discoteca ausente de urbanidade do Grupo K, logo os holofotes da imprensa mediatizada na viralidade ocorreram a clamar – e bem – a responsabilidade existente.
Na possibilidade Camarária para agir, o próprio Governo toma medidas, a ordem impõe-se e o eco desse tiro regressa ao silêncio da rotina de uma vida que ninguém pra nós ambicionou.

viral.jpg

Mas não há rotina sem escape. Ou escape sem escapismo.
Semanas depois um novo tiro no escuro.
A escuridão não viralizou mas desta matou.

Os relatos confundiram-se na entrega do que as redes sociais não vibraram entre um público alvo em casas de renome Lisboeta, mas, em plano contrário, desta feita um segurança havia sido baleado no decurso da sua profissão ao trabalhar na porta de uma discoteca.
O seu assassino? um menor, 17 anos, revoltado por lhe ser negada a entrada à uma da tarde num ‘after’ a terminar.
As notícias foram parcas, os relatos quase nulos, o Governo calou-se. Agiu a Câmara que anteriormente ter dito não poder agir nestes casos.
A vida de Nuno Cardoso terminou, a discoteca onde trabalhava encerrada, o jovem entregou-se para o destino dos que como ele nascem ter.

“Não, não nascemos todos iguais”

Há silêncios que apenas se quebram por tiros dados no meio da escuridão. E por vezes é essa escuridão, a da melanina que nos confere a pigmentação cutânea, que alteram o relevo e importância de um relato.
O Urban teve o imediatismo perene que persiste dado o efeito caucasiano acima mencionado.
O assassinato no Barrio Latino termina como quase nota de roda-pé informativo pela frequência nocturna ser objectificada num subterfúgio africano de estereótipo e clichês.

Não nos esqueçamos, não estamos na América Confederada, isto é a Europa politicamente correcta, onde a pergunta que realmente incomoda mais parece pertencer a uma realidade Norte Americana: Menor e armado, como e porquê?

O estarrecedor silêncio das autoridades diz mais do que a Sociedade corrompida pelos estereótipos cromáticos designados de raça.
Não se resolvem problemas crónicos ao se podar ramos de uma árvore infectada pelo preconceito latente. Nem ao nos silenciarmos no estalido dos tiros que preferimos não escutar.

Bem podemos dividir a Sociedade entre o viral da projecção mediática e o silêncio dos crimes que nos incomodam falar, mas o subjacente é o escalar de uma geração sem referencial, onde o que fica são tiros no escuro.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s