Timex Fugit

Serei suspeito ao contar este conto. Não sei se lhe acrescento pontos ou o contorno histórico dessa história que as estórias fazem História que me remetem para uma realidade tão presente quanto letra de canção passada.

Quando Salazar cai do poder Marcello logra mostrar lá fora que uma Primavera renascia onde antes o autoritarismo era terra queimada. Nesse longínquo ano de 1970 uma tal de Timex, fabricante de relojoaria Norte Americana, olhou para esta promessa que nova andorinha trazia e, percebendo a mão-de-obra barata e especializada que por aqui existia, viu como o pequeno burgo era ideal para montar uma das suas novas fábricas em solo Europeu.

A megalomania era tanta que em Portugal se instalaram arraiais com 2100 trabalhadores. Orgulho de uma Pátria que semana antes de subir de chaimite ao Carmo aplaudia o seu Delfim no Estádio de Alvalade.
Mas o fim do que não prospera sempre chega ao fim, música entoada, a Grândola ficou morena.

Com a Primavera vieram os Sindicatos, Plenários e ‘direito ao trabalho’. Em seguida Portugal tornou-se num reduto militar Comunista em busca da Democracia onde a Liberdade não tinha nem Rei nem roque.

A Timex, alicerçada no que se tornaram os cadernos reivindicativos de exigência de regalias sociais e salariais e “demissão dos indesejáveis” – saneamento de quem ia em contra os princípios políticos do período Vasco Gonçalves -, Fugit.

O ano de 1976 foi penoso quando os lucros iam em contra o que “a Comissão de Trabalhadores, uma autogestão do processo de luta” autodeterminava ser ‘a feroz exploração imperialista americana‘.
Formalizar o projeto de despedir 668 trabalhadores e reduzir a laboração para 3 dias por semana, entrando em lock-out por mês e meio, foi o rastilho final.

Enquanto o ‘direito ao trabalho’ vence em São Bento, emprenhado na Força do PêCê, a Timex desloca a sua produção relojoeiro para outra Democracia onde o lícito direito à Greve não ultrapasse o Direito à Liberdade e arbítrio dos patrões.
Burgo feito reduto reduzido.

Mas… porque há sempre um mas em histórias que começam com promessas de suspeitas e letras de musicas passadas, a Timex não abandonou Portugal.

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Nos anos ’80, mais precisamente em 1983, quando a promessa firmada de que a  Democracia da CEE traria fresco dinheiro Comunitário e estabilidade política, o Timex Sinclair 2068, o quarto e último “mini-computador” da empresa, começou a ser produzido em solo português.
Na rádio escutava-se “É p’ra manhã”, mimetizando ecos do passado grevista, nada era uma variação, porque quando fala um Português…

O Natal correu mal. Não só nos Estados Unidos, aqui foi ano de Troika e resgate.

Lá fora, em 1984, a Timex Computer Corporation encerrou suas atividades.
Por cá sobreviveu até 1989 quando o negócio teve intervenção política de Cavaco Silva. Ele era popular no voto, não nos negócios. Margaret Thatcher desfê-lo.
Em 1991 a Timex, essa lembrança de quando na Caparica se faziam computadores para o Mundo, saiu em definitivo de Portugal.
Agora existe como artigo de hipotético-luxo em lojas da especialidade.

A Timex chama-se hoje Auto-Europa.
Assim se vê a força do Bloco…

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