Crónica em prosa a medo

 

MCrespo
A verdade é que nunca escrevi sem tema. Esta vai ser a primeira vez, estimulado como estou pela leitura do grande José António Barreiros, inebriado como fiquei com a sua prosa cuidada que desliza pela actualidade sem esforço narrando quotidianos desonestos com a honestidade das suas palavras sempre em revolta. A primeira crónica que ele colou aqui no jornal de parede do Francisco intimida quem quer que se lhe siga. Eu, mortal há várias décadas, nunca tendo escrito sem tema, vou por uma vez deixar que milhões de pixéis se esgueirem entre murmúrios elétricos impelidos por suspiros iónicos que têm regras próprias que eu não entendo mas que imitam a tinta de Pollock que a gravidade e o acaso acabariam por harmonizar se a tela fosse suficientemente grande e a tinta não acabasse. Ponto. Era preciso um ponto (final ou paragrafo, não consegui decidir). Era preciso também rever tempos dos verbos porque a minha narrativa há-de sempre oscilar entre passados subtis,  presentes enfáticos, sujeitos plurais e sujeitos singulares. Mas um Ponto era preciso lá atrás. O próprio Lobo Antunes de quem gosto. Muito. Às vezes. Teria posto um ponto ali para reafirmar que há um estilo no seu método. No meu (método)  não há (estilo) nesta minha primeira crónica do resto das minhas litanias. Quer queira quer não vou definir-me na cortesia de um primeiro sorriso grato pelo convite do Francisco que no meu gesto ao fim de 70 anos de sorrisos pode parecer um esgar ou um arreganhar de lábios involuntário porque aos 70 anos as artrites e artroses são como a pintura de Pollack ou a prosa de Lobo Antunes. Vêm e vão. Mas deixam um sulco que irrita quando se compara e se imagina a complexidade dos voos passados. Das gaivotas claro. Nem as asas mexem. São perfeitas. E são eternas. Lisas e escorreitas como se tivessem 20 anos e fossem visões imaginárias de uma praia de Verão num bikini brasileiro que deixam no ar aromas de baunilha, canela e desejo. E ainda por cima voam. Não tendo estilo, eu, numa primeira crónica at large, tenho que ter um tema. Post hoc vou criar um avatar que invente temas. Ergo propter hoc transmuto-me em autodescrições sucessivas porque, como todos os homens são grandes nos seus sonhos (não é plágio, é Freud), também eu só deixo escorrer a tinta de Pollock e os pixéis de Gates na máquina de Steve Jobs para o lado que mais me convém. Hoje vamos devagarinho pelo centro. Tentando distanciar-me dos zelotas que julgam que dirigem o mundo criticando e inventando morais. E pintam murais aos sábados no Expresso, e são imorais nos outros dias nos evangelhos on line onde proselitisam as suas crenças de geometria variável por um punhado de Euros e umas inscrições no Wall of Fame instantâneo do Livro das Caras (será Livro de Caras? ou Livro Cara).  Venha lá esse like. Venha lá esse polegar para cima que aos setenta anos ter o que quer que seja para cima é reconfortante. E eu com estes milhares de caracteres em hipertexto sou agora o Avatar Inventor de Temas a dizer mal dos zelotas que não vou nomear porque não me apetece dizer mal de ninguém nem de nada (registe-se o absurdo). Quero só ver-me. Não quero ler os imorais nos murais onde moram os zelotas e os pundits. Não há termo português para pundits. Não há tradução porque na verdade nada é de facto traduzível. Pundits deriva do pandit ou pandita. O termo da Índia dos avatar do Bagavada Gita e dos outros livros de Veda de onde saem as bíblias todas e onde se inventam as crenças e se descobre a fé e se perde a fé porque aí sim. A tela é suficiente grande para aspergindo tinta em quantidade e em muita cor se vai encontrar uma harmonia de Pollock. Eventualmente. Em Portugal não há pundits. Não temos palavras para os descrever. Como uma crónica at large tem que ter uma invenção, aqui vai a primeira que merece um Like no Livro das Caras. Pum Ditos. Em Portugal há Pum Ditos. Não os vou nomear porque não quero chatices nem me apete (já) ofender ninguém. Mas os Pum Ditos escrevem em hipertexto quase todos os dias nas edições on line e quase todas as semanas no que resta de polpa de papel espremida com símbolos em offset. Claro que têm nome. E têm barba. E não têm barba. E são bêbados. E fumam. E não fumam. E gostam de caçar e de touradas. E odeiam caçar e ver touradas. E roem unhas até ao sabugo. E sabem tudo. Portanto, neste estatuto editorial em que lavro os meus desígnios em hipertexto aqui fica um manifesto pessoal. Eu não quero ser um Pum Dito. Mas se calhar sou. Pum! (não é plágio, é Negreiros). Vou parar agora. E escrever mais depois, concluindo que esta crónica fica melhor lida do que escrita, o que para um narcisista incorrigível é o género ideal. Está, portanto, no ponto.

Mário Crespo, grande correspondente e até certo ponto antagonista estimulante da farpa, aceitou o convite de regressar e escrever mais a menudo nesta que é também a sua casa.
Terá poiso fixo até que lhe doa a alma de tão pouco pontuar. Bem regressado.

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