De megafone na mão

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Pede-me o Francisco que venha a esta “Farpa”, titulo de sabor que é queirosiano por se esquecerem do Ramalho, escrever algo. E eu nem sei sobre o que escreva. De tal modo deixei de me interessar pela maioria dos assuntos correntes – talvez por serem escorrentes, com a devida vénia para os autores do título da prestigiada “Current Affairs”, a revista norte-americana de política & cultura, o & nos dias de hoje comprometedor porque sintomático – tanto tento surpreender ideias e não factos – e aí vem, quais cerejas, a lembrança da soviética e depois russa “Argumenty i Fakty” que foi voz da “glasnot”, e quem sabe já o que foi isso – que acabo por me dispersar em leituras sem rumo porque teimosamente sem bússola. Mas fica a teimosia.

Compro jornais e revistas com isso chegam encartes, desdobráveis, suplementos, separatas e promoções de que são veículos! E eis que começo por ler o que não interessa, guardo para depois o que talvez sim.

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O “Expresso” destas duas semanas traz muitas “coisas” sobre Angola e suas eleições, a dizerem em papel couché que lá está tudo muito bem. Do que nós nunca duvidámos, restando saber para quem. São revistas alegadamente produzidas lá para serem difundidas à borla cá. Carregadas com publicidades de bancos que, cambaleantes que estejam, têm sempre a sua quota de marketing para os do costume.
Não se distingue a notícia da propaganda, a publicidade da opinião. Trata-se de algo que ali é apenas mais evidente. A sofisticação mediática ainda não chegou a tais paragens.

É hora de almoço, comprei a imprensa ao findar da manhã e já cumpri o serviço cívico de me ver livre do aluvião. Mais logo tentarei encontrar a pepita de ouro de uma ideia ou, ao menos, um facto, relevante seja com o consolo de que, a falhar o esforço, resta o saco plástico para “os despojos do dia”, título de grande filme.

No quiosque aqui em baixo onde me abasteço, encontrei  o número dois, agora em jornal, da “Monocle”. A revista era imensa, pesada, com grandes fotógrafos mas fotografias ínfimas. Agora a carteira Louis Vuitton tem direito a uma imensa página sozinha, o relógio Rolex a duas.
O director é o mesmo que escreve uma coluna na edição de Sábado do “Financial Times”, a “Fast Lane”. Espécie de holandês voador dos tempos de hoje, é canadiano e chama-se Tyler Brûlé. Um dia escreveu no jornal cor de salmão que se o leitor olhar para a marcas das cuecas que veste notará que até essas são «made in Portugal», tentando mostrar que Portugal está na moda. Escrevi-lhe um email a perguntar como é que sabia das minhas. Respondeu, com ironia e fleuma, que faz parte da função dele estar bem informado.

Pronto é isto. Comecei em busca de ideias e terminei com as minhas cuecas. Pelo meio tenho o “Economist”, a revista que é tão pequena em espessura como enorme de profundidade. E por isso nunca se consegue ler tudo. A capa desta semana é Donald John Trump, de megafone na mão. Para que o ouçam. Quem muito berra torna-se inaudível.

José António Barreiros é o novo colaborador da farpa, escrevendo – como todos aqueles a quem estendo convite – quando assim lhe der vontade. Inicia-se com uma crónica domingueira, um ponto de paragem de interesse comum.

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