Élpis e a República de Weimar

De entre as crónicas diárias que, verborraicamente, escrevo, a que dediquei à Caixa de Pandora deixou-me inquieto.
Certo que foi recente e trata-se de um tema que afectará a Nação Lusa de formas mais contundentes que qualquer outra resolução bancária até agora afectou, mas não foi essa a razão, de facto, que me deixou preocupado.

No final do texto remato com o que havia sobrado na dita Caixa: Esperança.
Se a ser facto oportuno da história, de facto não tem nada.

A interpretação das narrativas históricas são algo que, tal como a agregação da História, se faz estória. Em determinado momento da minha vida escolar aprendi que numa dessas análises mais introspectivas sobre o Ser Humano, aquilo que havia restado na Caixa de Pandora seria a amnésia.
No fundo seria o que permitiria a Humanidade seguir, tendo como sua tábua de salvação o esquecimento sobre os factos antes ocorridos.

Claro que a interpretação analítica dos textos é mais profunda que uma mera suposição retórica do que seria proveitoso à Humanidade.
O conceito do que na verdade teria sobrado na Caixa de Pandora vem da leitura do poema épico de Hesíodo, As Obras e os Dias.
Nele se diz que teria sido Élpis, a personificação Grega da Esperança, a sobrar dentro da dita Caixa.
Mas narrativa mitológica vale o que vale, e Élpis tanto pode ser esperança como expectativa.

Mas o que sobra na Caixa de Pandora acaba por ser aquilo que lá se lhe quiser colocar, desde que sirva esse princípio de sobrevivência Humana.
Seja amnésia, esperança ou mesmo expectativa, o objectivo é que a continuidade da espécie não caia numa redundância da memória onde o passado se repita.
Ou será que sim?

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A pergunta que agora colocarei, numa noção historicista de retrocesso, advém da leitura do artigo de opinião de Jochen Bittner no The New York Times, Is This the West’s Weimar Moment? – Estamos perante a expectativa de um novo pós Weimar?

A linha de repetição e amnésia que se tem feito a cada dia mais presente, onde o combate ideológico tem substituído o bom senso da coerência política de Estado, faz presente os idos da Alemanha de 1920.

O saudosismo imperial e uma guerra perdida entregue a uma democracia com laivos monárquicos – Kurt Tucholwski chamou-lhe: “o negativo de uma monarquia, que só não o é porque o monarca fugiu” – permitiram a criação da República de Weimar.

A Alemanha de 1918, reconstruindo-se com as sanções impostas pelo Tratado de Versalhes – num desenho económico formulado pelo economista John Maynard Keynes -, transforma-se no perfeito embrião para o crescente descontentamento político/social representativo do Mundo Ocidental.
As diferenças sociais, marcadas por uma geração emocionalmente destroçada pelo impacto que a primeira grande guerra teve nas suas vidas, veem-se novamente impactadas quando em 1929 se dá o crash da bolsa de Nova Iorque.
Entre a sexta feira negra e a ascensão do Partido Nazi passam-se 4 anos, culminando com o fim da República de Weimar em 1933 e a instalação de Adolf Hitler como Chanceler Alemão.
Seis anos depois, em Setembro de 1939, a Alemanha invadia a Polônia. Iniciava-se a Segunda Guerra Mundial.

Os tempos são outros e a Paz do pós Holocausto “perpétuo” parece atingir o seu limite.

O último crash da bolsa ocorreu em 2008 e o descontentamento social tenta-se controlar fazendo recurso a medidas de austeridade.
As migrações em massa marcam o panorama rítmico de uma Europa descompassada com a sua realidade de privilégio.
A amnésia do esquecimento não parece funcionar e os político têm sido trocados pelo populismo facilitista.
A expectativa anda no auge. Parece que o caos de Pandora está para breve. A Esperança anda parca.

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