Intolerância, o nascimento de uma noção!

A era Digital repercute tudo aquilo que o adágio popular, usado na cartilha ideológica de uma juventude Salazarista, nos ensinou: “Portugal deu novos Mundos ao Mundo”, e assim, como no passado de antanho, agora relegado aos ensinamentos dessa Humanidade tão pouco Humana, cabe à “comunidade digital” dar novos rumos ao Mundo.
Mas que rumo é esse onde o politicamente correcto – a negação da verdade em detrimento da causa protectora desse outro alguém que se salvaguarda em absoluto incontestável – se faz limite intolerante.

Já não é o fingir não olhar ou dar o espectáculo oportuno de que existe a preocupação objectiva que a sociedade determina como lícita, nem mesmo o ultraje em atacar os mais velhos.
É o não existir um meio termo de aceitação e de pronto tudo ser o tema fracturante que precisa ser levado a um extremo.

Em 1915 D.W. Griffith, o tardio enfant terrible criador do cinema Norte Americano, lançou a sua obra cinematográfica The Clansman. Baseada no romance histórico de Thomas F. Dixon, Jr. adaptava uma narrativa fictícia sobre duas famílias no período da Reconstrução dos Estados Unidos após a Guerra Civil e o surgir do Ku Klux Klan como movimento contra os direitos raciais que se criavam num País agora unido. Como o título original não satisfazia o director de 40 anos, The Clansman é rebatizado como “The Birth of a Nation”, o Nascimento de uma Nação, em homenagem à dita união que a guerra não sufragou.

O filme com duas horas e 13 minutos de duração era o mais longo que a sétima arte havia visto e apesar do enorme sucesso comercial a critica de então não se reviu nessa visão censurável de que o Ku Klux Klan havia tido a importância relativa que teve na identidade Norte Americana. A América de 1915 constrangia-se face ao seu passado, buscando uma política de correcção para, com intolerância, responder ao que ela própria havia sido.
Protestos realizaram-se, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor opôs-me ferozmente à sua divulgação, mas a curiosidade Humana prevaleceu.
Hoje diz-se que graças ao filme de Griffith o segundo movimento do KKK ressurgiu com maior força nos EUA.

Mas terá sido?

No ano seguinte, em 1916, quase que em tom de entrega subversiva, como quem tenta se desculpar de forma passivo-agressiva, mostrando a o feio reflexo da sociedade que cria o monstro e depois dele se envergonha, Griffith cria a sua obra homérica e por tantos considerada o prego no caixão de Hollywood para as seguintes décadas.
Intolerance é o apoteótico filme que, com duas horas e meia, entrecruza quatro tramas distintas marcadas pela temática comum do nascimento desse sentimento tão Humano e mortal: a intolerância.

D W GRIFFITH

Griffith, que se veria arruinado com a produção homérica, narra a intolerância Babilônica na divisão entre crentes de Bel-Marduk e Ishtar, a intolerância Bíblica na Judeia que leva à Crucificação de Cristo, a intolerância na França Renascentista que levou ao Massacre da noite de São Bartolomeu e por fim a intolerância contemporânea com o lançamento do filme vista na moral puritana versus o deturpado capitalismo que assombrava a América de então.
A temática do nascimento era alcançada com uma Mãe, a Maternidade Perpétua, baloiçando um berço através da introdução da colectânea de poemas de Walt Whitman, “Leaves of Grass” – Folhas de Erva -, “Out of the Cradle Endlessly Rocking. Uniter of Here and Hereafter – Chanter of Sorrows and Joys.”
Essa maternidade repetitiva e eterna que no seu balanço nos traz um canto de alegria e tristeza face ao intolerante que nos tornamos.

O filme foi um fracasso. O mundo que havia entrado em Guerra não suportava olhar-se sobre esse seu passado/presente de forma analítica.
A intolerância que Griffith apresentava era o nascimento de uma noção, a simplificação edulcurante dos temas fracturantes.

Hoje, na era digital, da simplificação coerciva de tudo – das wikipédias onde a consulta se faz apanágio da sapiência total – o que sobra são apenas e só as fracturas dos temas acessórios.
Resta-nos mostrarmos ser intolerantes com tudo o que nos aparente ser diferente daquela norma que a normalidade ditou ser o vigente.
Quanto mais dissidente do politicamente correcto for o tema, mais pontos soma a cartilha ideológica no extremismo que se aceita e adquire como certo e correcto.

Os Ku Klux Klan de 1915 tornam-se os Trump e Duterte de 2016.
Crucificações, Massacres e queda de Impérios renovam-se nas trocas capitalistas que a União Europeia engendrou com Ancara para satisfazer cotas de migração, no delírio ideológico político que assombra a Venezuela, na bolha económica que a China se tornou.

A nossa intolerância transformou-se numa noção, nação viral em que todos têm o direito, lícito, a defender a sua individualidade, egocêntrica a egoísta.
Não é o fim, mas a perpetua maternidade deste novo Mundo que ao Mundo se dá.

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