Our Man in Panama

Quando o escândalo dos ‘Panama Papers‘ rebentou, fresco como um thriller de ficção política internacional, conspiração engendrada nos mídia, história em capítulos ao melhor estilo romancista de John Le Carré, não pude deixar de me lembrar do próprio autor e do seu livro de 1996 ‘O Alfaiate do Panamá‘.

Se a comparação parece rebuscada ou até imprudente, o facto é que um alfaiate sediado na capital panamenha, atolado em dívidas mas com o prestígio de ser o melhor no seu oficio, serve de perfeito informante para o agente Britânico Andy Osnard. Só que o próprio alfaiate, Harry Pendel, é também ele um vigarista que pretende ganhar com a troca errónea de informação e suceder na vida corrupta do Panamá, criando uma crise política entre os Estados Unidos da América e a hipotética venda do Canal do Panamá para a China.
Se a narrativa que Le Carré, também ele um pseudónimo literário para David John Moore Cornwell, escreve é-nos familiar, é porque a mesma bebe directamente do livro ‘Our Man in Havana’  de Graham Green, que em 1958 coloca um fictício James Wormold, vendedor de aspiradores em Havana, transformado em espião do MI6 durante o governo de Flugêncio Batista em Cuba.

Se a realidade imita a arte, neste caso foi o contrário, pois a trama em muito, de forma humorística, avisou o que se viria a passar em 1962 com a crise dos mísseis.
Mas pudera, o facto de Greene, na vida real um agente do MI6 desde 1941, ter o posto Ibérico da Secção V em Londres, sempre lhe mostrou esse lado da contra-espionagem e de como as falsas informações e a troca das mesmas servem como a distracção para ganhar uma guerra.

O seu ‘Homem em Havana‘ é baseado no agente duplo “Garbo” que ele à distância supervisionava em Lisboa e cuja narrativa ele havia já escrito como pano de fundo para um livro passado na Estónia. Como o frio não combina com a espionagem internacional e a guerra Fria teria contornos muito mais quentes, muda o cenário para próximo da linha do equador.

PANAMA PAPERS.jpg

A guerra fria já aqueceu faz tempo e a linha do equador hoje é conhecida por outros crimes.
Agora, e já que o nosso Homem é do Panamá, vem ao tópico os Panama Papers, ou mesmo os milhões de ficheiros electrónicos contidos na fuga maciça de informação que um anónimo da Mossack Fonseca partilhou com a imprensa Alemã.
Neles, diz-se, estão as suspeitosas offshores e crimes de colarinho branco que políticos, notáveis, saciáveis, colunáveis e famosos de todo o mundo contemporâneo dos últimos 40 anos têm sediado nesse paraíso fiscal.

A certeza nessa rapidez com que a informação se propagou, vinculada pelos midia, é tão propícia à veracidade que os factos tenham, assim como as histórias que um Alfaiate necessitado de dinheiro no Panamá crie a sua versão tingida para promover o melhor corte do fato que assente ao seu cliente.

Ter uma offshore é tão proibido como ter dinheiro num cofre em casa que não seja contabilizado.
Ou seja, não é. Os crimes por suposição que muito se falam podem, ou serão, meramente isso, uma suposição mediática.
O asterisco que acompanha todos os casos elencados na investigação indica justo isso, responsabilidade civil por parte de quem apresenta a notícia em não querer tomar parte culposa em ser denunciante de um crime que não cometeu.

Por enquanto os Panama Papers são isso, papéis perdidos no Panamá.

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