Charlie e o sabão em pó

O impacto da impunidade é algo que o mero reconhecimento do erro não me serve ou assiste como esclarecimento da responsabilidade que se imputa a quem prevarica.
Não sou, de longe, justicialista, justiceiro ou algo perto de demagogo ou populista, mas não deixo de reconhecer princípios deontológicos e éticos que nos devem pautar a todos e que em muito, na Sociedade Ocidental em que vivemos, advêm da existência, convívio e influência milenar da religião Católica.

Ignorar este facto sem as suas consequências é tentar ser politicamente correcto incorrendo nessa incorrecção.

Dizem que não se deve misturar política e religião pois, tal como ocorreu, as consequências são imprevisíveis dando azo a interpretações erróneas ou sensíveis de magoar convicções.
Já antes escrevi sobre o tema, mas se nunca se misturar temas fracturantes nunca nada deles se retira e a evolução do raciocínio Humano retém-se numa circunferência ao invés de numa espiral progressiva. Rebente-se a bolha.

Só que a bolha rebentada, numa clara analogia económica financeira, tem consequências. A última bolha do mercado que estourou deu no que deu, já as bolhas políticas, da correcção política, quando se quebram, dão no que dão.

O extremismo político em Democracia, como exercício de estilo, é estimulante. Eu aprecio-o como uma imposição a melhorar a resposta directa e ausência de estagnação. Já a sua instituição como forma de Governo apenas estimula a adversidade do pensamento tornando o extremismo em forma de combate.
O cartaz do Bloco de Esquerda resume bem esse facto. Se em oposição o efeito do mesmo teria essa condição de estímulo por antecipação, enquanto parte integrante da engrenagem de uma Geringonça manca, a leitura política que fica – ainda que se possa ler uma vontade de estímulo – é um revanchismo contra o veto Presidencial e a vangloria por revertê-lo.

Assumir que se tratou de um erro é um princípio, mas não basta. Nem tão pouco a viralização de que se poderia equiparar a hipocrisia de quem se ofendia com a imagem de um Jesus rosa choque à defesa do hashtag #jesuischarlie.

SANTO SUDÁRIO.jpg

O sintoma do extremismo político, esse hipócrita, é que se faz presente. Da mesma forma que a publicação Charlie Hebdo sempre foi vista como algo marginal e de um gosto dúbio – tendo assertivas críticas pela sua vulgaridade humorística a retratar diferentes religiões -, o seu Direito de Livre Expressão confina-se à Liberdade de Imprensa, seus códigos e regras.
Mais, o hashtag que se gerou após os ataques de 7 de Janeiro de 2015 à redacção do Jornal em Paris, foi a forma que, primeiro, a imprensa se solidarizou pelo ataque à Liberdade de Imprensa e, depois, a Sociedade Civil mostrou ser solidária pelo bárbaro ataque aos valores de Liberdade no Ocidente.

Evidente que o aproveitamento político, sobretudo de algum extremismo ideológico, deu a leitura de se tratar do inalienável Direito à Liberdade de Expressão. A ser verdade, é uma total mentira.
A Liberdade de Expressão, como a Liberdade de Imprensa, ainda que Direitos Democráticos adquiridos, contemplam regras. Se a Liberdade de Imprensa é regida por códigos de deontologia e ética, a Liberdade de Expressão rege-se por bom senso individual e claro, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, assim como a Constituição de cada país.

O princípio cívico de que “a minha Liberdade termina onde começa a do outro” é o factor agregador da Sociedade que se pretende Democrática e a razão pela qual tantos se uniram por uma causa além de um nome.
Quebrar essa regra por mera provocação ou polémica, com intuito a desestabilizar, demonstra a verdadeira natureza do que ser Charlie é.

Dizem que no melhor pano cai a nódoa.
Verdade seja dita, talentos à parte, o pano ideológico do Charlie Hebdo não seria o melhor já que se predispunha a sujar-se.
A sua nódoa demonstrou é que todos os panos se sujam, mesmo quando, tal como o Bloco de Esquerda aprendeu (?), se tentem branquear com OMO.

É que depois desta, nem a subversividade subserviente da maior minoria lhes desculpa um “são sabão em pó? votem em nós!”, pois há coisas que não ficam em branco.

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