um salto de género

 A biologia não resume as vontades entre os géneros – longe disso. Mas define justo o sexo com que se nasce, e assim, essa imposição que a Sociedade, ao longo da História Humana, tem colocado no papel que cada um desempenha.

 

Há pose e posição, há trejeito e manejo, mas no final – porque também a Arte existe – universalmente a grande diferença entre sexos (numa irónica crónica para retirar um pouco de seriedade acrílica ao que se tem passado nesta Sociedade em busca da eterna igualdade justicialista) não é mais do que o acessório de moda mais vendido (e comprado compulsivamente) no mundo: os saltos altos.

 

São eles que nos tornam diferentes. Se pensarmos historicamente, não existem referências culturais de Homens em saltos altos. (ou pelo menos não com muita frequência ou relevância)

 

Existem Homens de saias, brincos, cabelos mais ou menos compridos, até de maquilhagem, mas nunca de saltos altos. Óbvio que não me refiro aos travestis, uma sub cultura, da sua própria espécie, onde a utilização regular de stilletos ‘rouge passion’, tamanho 46 é algo até recomendável.

 

saltos altos.jpg

 

Que processo divino, então, é esse que faz uma mulher querer empoleirar-se em cima de plataformas desconfortáveis e pouco saudáveis? Que razão pode existir para que passem esse sacrifício diariamente? Porque não usarem umas, tão confortáveis, chanatas compradas na drogaria; ou uma, tão baixa e simples, sabrina de sola rasa? (já agora umas sandalecas em couro, complementadas por umas meias brancas, claro!)

 

É nítida a vontade de se igualarem ao sexo (considerado) forte, mas chegarem ao absurdo de necessitarem de um meio de elevação anti-natura?

 

Se analisado do ponto de vista histórico, a presença dos saltos altos é uma constante. Não necessariamente sob a forma de um sapato de saltos altos.

 

As culturas milenares sempre usaram a mulher como um símbolo divino; a sua feminidade, demonstrada pelo processo de reprodução, faz dela o meio de criação da vida. Louvável. Desde os tempos mais remotos que surgem representações escultóricas ou pictóricas da mulher como símbolo da fertilidade Humana. De formas arredondadas, peitos largos e sexo marcado, as pequenas estatuetas pré-históricas eram exibidas em pontos altos de referência. Está dado assim início ao processo da mulher sob plataformas: a elevação simbólica da mulher como o sexo forte.

 

A obsessão humana de querer chegar aos céus, representado por pirâmides e torres (analogia a formas fálicas) pode ser um simbolismo, também ele, feminino. Os representantes religiosos para a vida e morte sempre foram opostos, enquanto o Deus da Morte é uma figura masculina, o Deus da Vida (no caso uma Deusa) é representado pela figura feminina. A oposição na posição destes deuses é notória: enquanto a vida está relacionada com a elevação e os céus, a morte está relacionada com um sub-mundo subterrâneo. Novamente aqui se faz uma apologia à elevação feminina, ainda não sob a forma de saltos altos mas, como representação de uma hierarquia de valores singulares: a reprodução.

 

O elemento salto alto só começa a aparecer com representação pictórica nas culturas Orientais.

 

O endeusamento feminino (posteriormente esquecido e tornado num ‘rebaixamento’) obriga as mulheres a andarem sobre plataformas. Pequenas ‘andas’ onde os pés são apertados até à deformação fazem da Mulher o símbolo da ‘perfeição em elevação’.

 

A referência visual, sem o seu conteúdo historicista, faz com que a adaptação Ocidental na Europa seja meramente decorativa. A história do salto alto inicia-se, assim, com o período das descobertas e trocas culto/comerciais. Durante o século XV e XVI as referências aos sapatos plataforma surgem nas culturas clássicas de inspiração helénica em Itália: a beleza pela beleza do cânone Humano, a perfeição atribuída à Mulher com a sua elevação sobre saltos altos. Óbvio que o desafio de alturas despoletou a sua ligação a Mulheres de más vidas.

 

A conotação dos saltos, e da sua altura, tornaram-se, então, numa referência de libertinagem: quanto mais altos e ousados, maior a ousadia da Mulher perante o Homem. Assim os saltos foram importados como um símbolo de festa e liberdade sexual.

 

Muito ao contrário da sua ancestral referência Oriental, nas cortes francesas do século XVII, o salto recebe honras, e torna-se parte integrante de uma série de acessórios disponibilizados à mulher. Novamente como símbolo de elevação, poder e igualdade hierárquica mulher/homem, o salto alto reaparece como ícone de moda. (até certo ponto a cultura de moda seiscentista atribui uma certa igualdade entre sexos, onde o homem também usa o seu ‘salto alto’: o sapato de tacão)

 

Desde a sua transformação em símbolo iconográfico de moda (posteriormente a símbolo religioso, libertador e de libertinagem) o salto alto assume a sua faceta de acessório genuinamente feminino. pertença suprema da relação Feminista: Mulher/Homem.

 

Se há um artigo genuíno, feito para Mulheres, o salto alto é a sua representação. Como referi no início; saias, brincos, cabelos e maquilhagens, fizeram e fazem parte do imaginário masculino (mesmo que muitas vezes não assumido), mas somente o sapato de salto alto nunca chegou a tornar-se num ícone marcadamente masculino.

 

Tornou-se na prova viva da superioridade feminina em relação ao seu alter ego masculino. A mulher como sexo forte da parelha é, assim, representado pelos saltos altos.

 

Porque há vontades que nem a biologia explica.

E ainda bem. Porque as Mulheres serão sempre Mulheres, e os Homens Homens: independente do género que tenham, mas referente ao salto que usam.

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