O urso e o mel

O Grande Império Oriental, do consumo em massa, que no final dos anos ’80, com a queda do Comunismo Soviético se insurge como a mudança sentada que tudo fabrica e mais, tudo copia, vê as bases da sua economia se alterarem de uma consequente forma.
Há mel e vontade de nele se lambuzar.
Se a dimensão da repressão funciona derivada à força aplicada, também a felicidade é algo que se acredita existir mediante aquilo que é uma crença no que é a vida que se leva.

É ela justa? Ou pelo menos dentro daquilo que se acredita ser justa?

Se a resposta apenas pode ser aquela com a qual crescemos, um sim é óbvio como retorno a uma pergunta idiota.

E no fervor de uma produção que alimenta um Estado Capitalista, ou pelo menos um Estado que faz do seu crescimento um Capitalismo de Estado, a China fez a aposta certa.

Claro que a transição entre o Regime Comunista puro do velho Urso Mao Tsé-Tung para a versão pro Americana de Deng Xiaoping não ocorre de forma completamente pacífica.

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O golpe para a tomada do poder começa com a queda da chamada República da China na ONU em 1971, firmando-se a ruptura sino-soviética em 1972 seguido do reconhecimento da República Popular da China, pelo Conselho de Segurança, na Organização das Nações Unidas.

Em 1976 Mao morre e o anterior Regime é derrubado por Xiaoping.
O Bando dos Quatro, responsáveis pela implementação da Revolução Cultural Maoista, são sumariamente julgados e presos.
Os resultados do fortalecimento populacional de Mao, do seu ‘Grande Salto Adiante’, apesar de terem feito a população Chinesa multiplicar-se de 550 para 900 milhões no espaço de uma década, resultaram na morte de 45 milhões de pessoas à fome durante os anos ’50.

A revolta Social era sentida, e por tal o Governo Central, agora, desde 1979 reconhecido e amistoso com a América de Richard Nixon, afrouxou a sua política económica, passando de uma economia centralizada para uma economia mista com um ambiente de mercado cada vez mais aberto – um sistema de ‘socialismo de mercado‘; o sistema que até hoje impera, como descrito na Constituição que data de 1982.

Mas claro que quando o pote de mel fica sem um Urso para o proteger, há fome de sustança.
E a China da década de ’90 é a própria prosperidade da sustança sustentável.

Se há algo que resuma a China, são as duas palavras que antecedem o seu nome em todos os produtos manufacturados a preço baixo e incrivelmente competitivo: MADE IN.

Os dez anos da década de 1990 são liderados pelos anteriores Presidentes da Câmara de Xangai, o Presidente Jiang Zemin e o primeiro-ministro Zhu Rongji, cujas políticas e estímulos Sociais retiram 150 milhões de pessoas da pobreza, mas criam uma polarização entre a China urbana e a China rural.

A receita fiscal de um país que cresce a 11,2% ao ano não se coaduna com os níveis salariais praticados.

Claro que a razão por trás da disparidade é evidente. A máquina Estatal, do Capitalismo de Estado, continuava a funcionar como antes, mas agora sob nova orientação, numa linha de abertura ao mundo exterior por defeito de necessidade.
Dos despojos dessa aura Comunista caída restaram os ‘Oito Imortais‘, o grupo dos oito anciãos que rodeavam o poder de Mao Tsé-Tung e que, aproveitada a sua morte, conspiraram para ficar com a gestão do património restante.

O mel que estas linhas sanguíneas nos vendem, e fazem render em causa própria, dos computadores a marcas de luxo fabricadas a preços irrisórios, importadas para todos os lados, têm em si esse ónus da traição interna.
Visitar as gigantes fábricas Chinesas é compreender a distinta diferença do significado da palavra Liberdade entre dois Mundos situados em antípodas.

Por aqui acreditamos ser Livres, pois temos a verdadeira escolha de poder optar por sermos livres. Livres de sermos quem somos, como somos e queremos ser. Acartando, em causa própria, as consequências dos nossos actos.

Por lá, nesse antípoda, a Liberdade é trabalhar por 1,5€ à hora, 60 horas por semana, não ter intervalos, cometer suicídio em desespero de causa, e viver dentro da fábrica que produz aquilo que nós, o Mundo reverso, o verdadeiramente Livre, usa, veste, traz consigo.

Esse mel saboroso com o qual nos besuntamos.
Saboreamos e pagamos barato.
Muito barato.

Porque o Urso de facto morreu, e o mel está entregue aos Selvagens.
(nós)

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