Tupperware Society

Se a vida tivesse de ter uma única obrigação pré-determinada, a meu ver, seria ser-se Livre.
Tudo o resto é acessório.

Óbvio que não se é assim tão simplista, e num strictu sensus conservador, há muitas obras obrigações de bom senso que fazem parte dos ideais a terem sido em conta para uma vivência em Sociedade.
Ainda assim, perante o declínio da Sociedade Moderna – prefiro dizer contemporânea; sinto cada vez mais estarmos a viver numa Tupperware Society: tentamos ser algo por conveniência, em aparência, simplesmente para disfarçar algo que, em Sociedade, não será, à primeira vista, aceitável.

Em 1950 foi lançado o último filme de Judy Garland na Metro Goldwyn Meyer (MGM), a sua obrigação contratual. Intitulado ‘Summer Stock’ serve apenas como um reduto de talentos para mostrar a actriz, junto com Gene Kelly, naquilo que ela é melhor: cantar.
O enredo é frágil e o conteúdo reduzido.
Ainda assim contem uma das mais emblemáticas cenas musicais de todos os tempos: ‘Get Happy’.
Num fundo pantomimico de céu avermelhado, com nuvens do entardecer, entre um grupo de cavalheiros de fato e laço, surge Judy.
Veste apenas um casaco de smoking, follard branco, meias e saltos altos, e uma fedora.

É enigmático.
É hipnótico.
Diz-nos para “Esquecer os problemas, vir ser Feliz, afastar as preocupações e clamar Aleluia, preparar-nos para o Juízo Final”.
Só que a felicidade aqui apresentada esconde algo.
É comerciável, graficamente apelativa e musicalmente grandiosa.
Só que o conceito por trás do ‘Get Happy’ – Fica Feliz; vem de outro filme.

Realizado em 1948, ‘Easter Parade’ foi o regresso de Fred Astaire ao grande ecrã, e em conjunto com Garland fazem de uma Parada de Páscoa outra mostra de talentos musicais.
Eram tantas as músicas de Irving Berlin que aquela que marcaria visualmente o momento de Garland acaba censurada para não ofuscar Astaire.

Foi ai que o conceito do smoking surgiu, pela mão do Director Vincente Minnelli, marido de Garland, mas onde a música serviria para mostrar o paradigma da Sociedade de então.
Pontuando a visão de uma ostentação gráfica, o feminino masculinizado, cintura apertada, pernas longilineas, fedora provocadora, Judy canta a música Mr.
O Mr. Monotonia é um reflexo da Sociedade.

É alguém que, sem graça, apenas toca um tom monocórdico, nunca destoa, mas sempre faz o igual para nunca errar.
É chato e previsível. Casa-se e procria, produzindo mais monotonia.
A geração seguinte, dos trombones monótonos, quebram a monotonia, com a tristeza de se casarem com o clarinete, onde o imprevisível acontece.
Termina melancólico: “Não mais há monotonia hoje?”

A cena eliminada, sucinta e centrada, foi em 2009 reeditada.
Judy Garland joga connosco, a Sociedade, com a ideia de sermos monótonos e prisioneiros da mesmice, para no final, na saída de cena, sair aplaudida num silêncio de uma cena sem edição.
Sintomático da perversão que o ‘Get Happy’ faz.

GET HAPPY MR MONOTONY.jpg

A felicidade é-nos vendida como uma ficção forçada, em que temos de representar no dia-a-dia até ao Juízo Final, neste purgatório chamado Sociedade.
E fazemo-lo.

Todos os dias acordamos com a obrigação de dizermos ‘Ser felizes’ sabendo de antemão que a Felicidade, ao ser um sentimento, é algo que se está e não se tem.
Assistimos na caixa mágica, essa mudança de Mundo, a felicidade imposta, o Happy Feeling, o estar bem a toda a hora, a rir falsamente e não ter problemas.
Deprimidos, oprimidos, relegados ao abandono civil e encharcados com uma farmacopeia desnecessária para aceitar a falha e o erro.

Surpreendemos-nos com a adversidade da Sociedade Transviada, na sua Juventude, na sua Corrupção, na sua Política, nos seus Princípios, ou falta deles. Somos hipócritas a não constatar esse efeito prático e auto-analítico de nos vermos reflectidos na verdade do que somos ou podemos ser.
Ninguém escolhe ser o que é. Trabalha para o que pode ser.
Umas vezes com sucesso.
Outras não.

Tentar guardar tudo em Tupperware – os ‘tapa’roer’ do povo; é apenas tentar preservar algo que passa de prazo e fica estragado.
E a Sociedade assim está.
Surpresa com ela mesma.
“Mr. Monotony, Get Happy!”

FORGET YOUR TROUBLES.jpg

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