Virgens suicidas

No 1 de Outubro, 3 dias antes das eleições, quando as estatísticas apontavam para a retumbante diminuição da abstenção, já eu escrevia o suicídio que seria a sua realidade nesse papelinho depositado nas urnas.

Não presumo fazer futurologia, nem tampouco adivinhação. Simplesmente leio a animosidade complacente que se desfere um pouco por todos os lados.

Porque o voto, nos dias de hoje, é o equivalente a sermos virgens suicidas.

(texto originalmente publicado a 1 de Outubro de 2015)

 

A noção de que a corrupção se instalou, agora, na política, como sistema, e que deve ser – e deve; erradicado, é algo que leva uma fatia dos ditos indecisos a se pronunciarem de forma objectiva: votar em corruptos é ser cúmplice de um crime.

 

Mas a verdade que se descobre neste coça coça, estilo pulga piolho, comichão comichosa, é de que amplas virtudes e certeiras certezas está o inferno cheio.

Ou seja: garante de imaculada concepção só reconheço, na minha imatura ignorância, uma, a Virgem Maria. E mesmo essa, suponho, teve trabalho de parto para ter Cristo antes deste O ser.

 

E quando Jesus nasceu não havia epidural para anestesiar a dor de tudo. Já hoje há de tudo.

 

Esplanado isto, pergunto-me, numa lícita ambiguidade moral: não são os eleitores que decidem votar nesse D. Sebastião em eterna ausência, umas virgens suicidas?

É que no descalabro da realidade actual, não prevejo – nem nunca o fiz; a vinda de um Salvador que nos proteja de um impacto com aquilo que somos: Humanos.

 

É que até a Crença no Divino, perfeito, perpétuo e eterno, é criação mental.

 

VOTING.jpg

 

Vejamos a realidade imparcial dos analistas externos.
Tanto para Colin Bermingham, analista do BNP Paribas, como para Peter Goves, analista do Citigroup, ambos em Londres, a diferença na escolha entre Passos Coelho ou António Costa para futuro Primeiro Ministro de Portugal não terá influência nos juros da dívida Portuguesa, ou sequer impacto nos Mercados nacional ou Internacional quanto a Portugal.

 

E não porque haja uma latente questão que faça divergir políticas na sua base ideológica – que há e têm sido arma de arremesso político; mas antes porque a consolidação orçamental elencada no resgate financeiro pós Troika assim o dita.

Ou seja: pode estar agora a oposição de Esquerda elegível a tentar propor uma alternativa plausível que a mesma não será de todo possível.

E todos sabem e têm consciência do mesmo.

 

A tentação do efeito é a inversão desse suicídio que a crise de valores absolutos está a proporcionar.

 

Se por um lado a radicalização do Partido Socialista – embora sendo do chamado centrão, estar agora num eixo mais à esquerda que a Esquerda tradicional; atrair eleitores que estão necessariamente descontentes com a política do Governo, a sua forma de explanação radical tem feito a Esquerda existente muito mais moderada e credível, e nisso os seus potenciais novos eleitores tendem a ir para o Partido Comunista e Bloco de Esquerda.

As sondagens e track polls, ainda que tendenciosos e muitas vezes contestados, têm servido para ler algo fundamental: o nível de indecisos frente ao discurso cada vez mais eleitoralista que a campanha está a tomar.

 

Quando, no dia 4 de Outubro, há jogos de futebol envolvendo os três grandes clubes, e sabendo da clubite infecciosa que invade a vontade do eleitor português, a verdade é que esta tendência que antes baixou, seguramente subirá e a abstenção chegará a níveis recorde, mostrando o porquê do suicídio virginal que ocorre na decisão política de um País.

 

Mistificação? Não, anestesiada crucificação.

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