SEE IT PASS

Quatro Homens fardados aproximam-se.
De roupagens ilustres, tecidos finos de pesados gramagens, xantungues de seda, veludos e brocados.
Mangas de alpaca e contas feitas.
O largo cheio de gente entre ramos de flores decepadas.
O chaimite desce ao rossio e o ar desanuvia-se.
Ouve-se:

“Na cidade onde eu nasci, havia um Homem que navegava pelos mares. E ele contava-nos a sua vida.”

A vida vivida no vislumbre de um olhar.
Da cor de malaquita, atacamita, vivianita, piromorfita, conichalcita, apofilita, fluorita, tsavorita ou simplesmente esmeralda.

Olhar esse que revela o brilho da prosperidade alheia.
Entre o mar desavindo, nesse amor deixado para trás, me dizia:
Oh, como todas as outras paixões se dissolvem no ar,

Pensamentos duvidosos, desespero precipitado,
O medo que faz tremer, a inveja de olhar verde! Oh, amor
Sê moderado, reprime o teu êxtase,
Põe rédeas à tua alegria, afasta esse excesso.
Sinto a tua bênção! Torna-a menor
Porque receio desmaiara
Porque ela, essa que a conquista lhe tinha traído, da cor do mel se volvia.
Agora de outra coloração se fazia ver.
Cambiante turmalina, entre o quente âmbar, a opaca cornalina, cristalina ametista.
Esse olhar feroz que de noite nos vê esconde o reflexo que antes amedrontava.
O ar volta a pesar.

Fica soturno e pálido, e os quatro de antes voltam a dar o tom de marcha:

“A toda velocidade, Mr. Boatswain, a toda velocidade
A toda velocidade, Sargento.
Corte o cabo, solte o cabo,
Sim, sim , Senhor,
Sim , sim Capitão, Capitão”

À cidade regressou o Homem que navegou os mares, enquanto o outro partiu rumo à ausência eterna.
Enquanto um vai viver a vida, outro volta de a viver, vivida no vislumbre de um olhar.
Olhar esse, amarelo de medo.
Põe-se o sol, as gentes aproximam-se das margens do rio.

Diz-se:
Vão olhar passar submarinos.’

SEE IT PASS.jpg

Adentra o mar, soa o tambor.
Sente-se o calor de negra cor, fluída e agreste.
O cão ladra em tom peremptório de aviso.

No mapa resgatado a instrução diz:
Isto bem revolvido, determina
De ter-lhe aparelhada, lá no meio
Das águas, algũa ínsula divina,
Ornada d’ esmaltado e verde arreio.

E de novo, regressa esse velho olhar, aqui isolado na exaustão da lembrança.
São os quatro generais em busca do resgate que se viu partir de uma costa distante. De um passar de algo que se quis conquistado e aqui se viu tragado no amargo da manhã que se desperta.
O cheiro da terra queimada, na fuga daquilo que antes foi, deixa a lembrança do que era.

Os Homens de olhar verde foram-se enquanto os de olhar amarelo ficam.
Lá longe, as aquáticas donzelas (Todas as que têm título de belas,
Glória dos olhos, dor dos corações) cantam o seu hino de independência:

“A noite acabou, o jogo acabou, para mim aqui.
Quando acordar, já te esqueci.
Acabou-se a dor.
Quem perdeu foste tu só tu e nunca eu
Afinal hoje o papel principal é meu. e só meu.”

Há lodo neste cais, e a outrora prospera ilha é deixada à sua sorte.
É escura a terra de negrume, pálida e cálida quando o que antes jorrava agora fibrilha ao abandono.
A dependência era maior que um garante irrevogável.
Era Total.

O cão ladrou, e o submarino passou.

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