curriculum vitæ

A Sociedade pós Moderna Portuguesa, dos retornados tornados emigrados da crise de ’74, foram catalogados como sendo sol de pouca dura intelectual.

Se Bidón Ville era o apodo de referência para quem vivia nos HLM parisinos em busca de trabalho para sobreviver, aqui na terra, as circunstâncias imutáveis da grandeza e eloquência, formatadas na ambição dos títulos e prefixos, criaram o ideal da ideia do estudo e formação de pacotilha.

Há que se fazer CV.

Há que se estudar e enobrecer-se de títulos, quasí, nobiliárquicos, pré-determinações de estilo e género, referências e referenciais para uma idolatria e tratamento diversos.

Há que sair do Bidón Ville rumar à Belle Ville.
Há que ser Belle, nem que seja, só e apenas, no curriculum vitæ.

O desenfreado do princípio dos anos 1990, prosseguindo pelos 2000, assegurados neste eterno ideal do emprego, empregabilidade, Servilismo Público, impossibilidade de despedimento, reforma antecipada, jubilação eterna, criaram uma geração que se fez com base em cursos eruditos e sem grande utilidade ou, para mal de todos, fornadas de igualdade excessiva.

Olhar para o panorama Nacional Português e compreender essa realidade dilacerante: temos Advogados, Engenheiros, Arquitectos, e outros que tais numa constante incerteza laboral.
Fazem o que podem para viver e sobreviver.
Maioria à custa das gerações mais velhas que os sustentam.
Ou então emigram, como antes, mas mais preparados.
Só que a Belle Ville não é Belle.
Nunca foi.
Nem será.

Mas, ainda assim, perante a actual geração, num confronto de passagem, qual rito de transformação, a classe política que nos (des)Governa é fruto, já, deste emaranhado de CV’s sem nexo, causa ou efeito.
Ou na verdade tem dos três tudo.

O nexo é serem longas listas de locais, muitas vezes fictícios, onde dizem ter trabalhado por afinidade ou simpatia, cumprindo horário para posição ou cargo.
A causa é a imposição de se dizer ter, na ideia de se ter que ter, um nome precedido pelo título de respeito e posição.
O efeito é o óbvio: ao não saberem o que na verdade afirmam ser, não sabem fazer o Belle Ville que ambicionam ter, sendo que o Bidón Ville é a realidade que camuflam ser.

O único que safa à Nação dos quase 900 anos, brandos costumes, é ter no seu curriculum vitæ a saudade. Faz dos emigrantes, sempre, imigrantes de alma e coração.
Porque como a santa terrinha não há.

SAUDADE.jpg

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