Começo por admitir aquilo que a minha Mãe me ensinou e é defeito de uma geração: aos teus superiores tratas sempre por você. Mais – como diria a minha (querida) avó materna, respeito é bom é eu gosto; a linguagem usada parece excessiva inicialmente, mas compreenda-se, se eu sou anónimo (na minha existência), o meu interlocutor e os temas abordados são parte da história de Portugal, alvo de crítica pública, dentro da Liberdade e – como me é dito – balelas de Expressão.
Acrescento que esta farpa, crónica de vida, não é juízo de valor, antes uma aprendizagem sobre a evolução humana e o comportamento face ao agressor externo.

Vamos ao que interessa; sigo João Soares, filho de Mário Soares, fundador do Partido Socialista, no Facebook faz anos. Acompanho, admito, com maior interesse, as suas intervenções desde que decidiu, extemporaneamente – a meu ver – assumir as funções de Ministro da Cultura no Governo Geringonça (como ficou conhecido). Se a posição lhe poderia encaixar que nem uma luva pelo passado no pelouro da cultura em Lisboa’94 ou na Editora Perspectivas & Realidades – com Vitor Cunha Rego – em 1975, a verdade é que a crítica a Vasco Pulido Valente e a Augusto M. Seabra – colunistas do Público – oferecendo um par de bofetadas, denegrindo recorrendo ao insulto chulo:

“Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia. Ele tinha, então, bolçado sobre mim umas aleivosias e calunias. Agora volta a bolçar, no “Publico”. É estória de “tempo velho” na cultura. Uma amiga escreveu: “vale o que vale, isto é: nada vale, pois o combustível que o faz escrever é o azedume, o álcool e a consequente degradação cerebral. Eis o verdadeiro vampiro, pois alimenta-se do trabalho (para ele sempre mau) dos outros.” Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também.”

No dia seguinte o Ministro demite-se. Invoca esse princípio Constitucional: “o Direito à Opinião”. Não lhe passa pela cabeça o insulto que termina de cometer em público.
Mas João Soares não é, nem foi só o Ministro que se demitiu. Creio que há nele uma semelhança, em diferente grau (óbvio), comigo, e com a história de Portugal e o 25 de Abril. Enquanto eu sou apenas bisneto de Marcello Caetano, João Soares é filho de Mário Soares.
Se eu (não) carrego a herança do antigo regime, ele tem um nome a defender como marca de Liberdade, Democracia e Fraternidade.

No Portugal do século XX a harmonia política manteve-se dentro do expectável, oscilando entre o Social-Centrão-Democrático. Durante a minha curta vida os sobressaltos de memória só se fizeram presentes com Sócrates, século XXI, crise Internacional do Subprime, mundo em recessão, Portugal em negação. 2011 foi o que foi: a Direita chamada a colocar o chinfrim Socialista em ordem, Troika de armas e bagagens em território nacional até 2014.
Nas eleições de 2015, e mesmo com uma victoria minoritária por parte da coligação PSD-CDS, algo inusitado ocorre; o PS recorre a uma união negativa para fazer maioria e fazer da sua derrota o governo cuja missão única seria reverter a memória da direita apelidada de fascista, na senda do maior protocolo sindicalista que Portugal tem desde o verão quente de ‘74.
Este é governo que João Soares ingressa.
Um governo erigido do espólio de uma batalha perdida, da raiva acumulada por anos longe do poder, de um ex-Primeiro Ministro preso. Da má memória que só uma pandemia parece desviar a atenção.

Na espuma dos dias que correm, da verborreia diária que passa, leio um amplo elogio que João Soares escreve a Catarina Martins, líder do Bloco.

“Sou, como sempre disse, um homem de esquerda indefectível do PS. Mas isto dito atrevo-me a cometer a imodéstia de sublinhar que, tendo partido, sempre pensei pela minha cabeça. A entrevista de ontem de Catarina Martins, líder do BE, à TVI foi excelente. Ela tem, cada vez mais e melhor, grande capacidade de comunicar. Clara, dentro das questões, simpática, com uma grande facilidade de expressão usando linguagem simples.“

Longe de mim fazer a análise de carácter de alguém que não conhece na intimidade. Longe de mim aferir um juízo de valor face ao que se diz numa rede social amiúde dos ventos que correm.
Longe de mim pedir coerência a um anónimo num cambiante mundo de ‘nins’.
Mas João Soares não é anónimo e pede-se-lhe um pouco de coerência.
Comentei a sua publicação com a minha admiração;

“Pergunto-me João, como é que tu, saindo humilhado do governo Geringonça, tabefes públicos, um PM que te usou pelo nome do Senhor teu Pai, usurpando o Socialismo à Direita pelo qual a tua casa de Família é conhecido – e que depôs a Esquerda que se quis impor ao Portugal da Liberdade que derrubou o Regime da qual a minha Família faz parte – consegues fazer tantos malabarismos de agrado a uma esquerda perigosa que adentra neste Socialismo Costista que destrói tudo o que Soares de herança deixou?
Fico perplexo!“

E a minha perplexidade, atrás explicada por uma história onde o engodo dos muros caídos se fez tábua rasa para cimentar uma guerra fria nacional, teve como resposta o desagrado de quem, por geração, se sentiu mais tocado ao ser tratado por tu que se ver espelhado numa narrativa de vida;
Responde Soares filho:

“Francisco Moura Pinheiro com toda a consideração possível, o que escreveu são na maior parte dos casos balelas sem senso. Faça o favor quando  se me pretende dirigir de não usar, indevidamente, o nome do meu pai. Quanto mais não seja por delicadeza elementar. O tratamento por tu, não nos conhecendo nós pessoalmente, também me soa esdrúxulo. Passe bem.”

Só que nada de indevido houve, e balelas não passam bem.

“João, trocando formas de dirigir não altera o que escrevi de serem factos comprováveis pela História.
De resto, conheci, assim como a minha Família, muito bem o Senhor seu Pai e a sua Mãe, por quem tive (tenho) grande estima.
Balelas é passar ao lado da verdade e construir uma realidade alternativa.
Passe, sempre, melhor.“

O ex-Ministro ainda me respondeu uma última vez, demonstrando bem a verdade que em nós vive, na certeza da razão inequívoca detentora dos factos vividos sem reflexão desse reflexo narcisíco mortal.

“Eu nunca saí humilhado de nada. Ninguém usou o nome do meu pai. E essa do socialismo à direita é um imenso disparate e destruição da herança política do meu pai se não é balela é mesmo disparate.  Enfim é isto que penso.”

Antes que o diálogo se transformasse em debate de argumento frente a um público que perguntava onde se encontra o meu eixo político face a uma esquerda de ligeiras deflexões ideológicas que apenas enriquecem a democracia portuguesa, decidi concordar em discordar, invocando a minha juventude política no que toca a malabarismos de oportunidade.

A minha verdade não pode passar por posicionamentos estanques e indefectíveis face aos factos que a cronologia e subsequente história comprovam.
Mais, no que à proximidade histórica concerne, não me posso fazer refém de um nome, sombra de um homem.
Nem tabefe, nem balela. Apenas aresta a limar, reflexo a polir.
‘Enfim, é isto que penso.’

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