Só se fala no coronavírus.
Eu próprio me resigno a esse fado estafado de contemplar a imposta solidão do teletrabalho, entre sofá e Netflix e esses instantes fugazes de liberdade que ir colocar o lixo lá fora, me propicia.
Mas se o responsável por este difícil momento é um vírus que nos restringe, a forma como o secretismo político de um Império se faz policial, não se faça disso razão de ódio ou histeria.
Há muitos anos que faço da Fraternidade o meu modus operandi, mas o juízo de valor existe face ao desconhecido e da China conheço o cartão postal, o vislumbre crítico da política que o Ocidente da Liberdade zomba. Na narrativa criada o mais parecido que se me assemelha é a União Soviética e o fantasma do marxismo-leninismo, pouco mais.
Por tal, entre conversas sobre o “Guerra e Paz” de Tolstoi, os relatos de Um Ocidental na Ásia surgiram da vida que o meu grande amigo Nuno Ferreira teve nesse grande mistério que é o Oriente para mim.

Nos meus 47 anos de vida já dei a volta ao mundo. Ficou por conhecer a Oceânia e a América do Sul. Por enquanto.
A Oceânia sem dúvida. A América do Sul também mas nem por isso. Nada contra, mas a minha terra é na Ásia.

Em ‘84 quando cheguei a Macau tinha 12 anos. Como não tinha vaga no liceu português fui para uma escola também portuguesa mas para chineses e macaenses onde acabei por ficar alguns anos. Era o único português na minha turma onde mal se falava português. Todos me receberam de braços abertos. Um sucesso entre o sexo feminino.
Um dia o meu melhor amigo,  António, aliás Lung Vai Pan, convidou-me para ir a sua casa. Chinês, pais chineses, com 10 irmãos e irmãs. Uma casa velha e escura, paredes pretas da humidade, tive que me descalçar à porta. Eu português, filho de adido militar, numa terra chinesa com administração portuguesa. Todo esse fardo colonial. A casa tinha duas pequenas divisões. Um quarto e uma cozinha. O quarto tinha um beliche e uma cama onde dormiam os pais e os 11 irmãos. E a cozinha, com uma mesa ao centro, que rapidamente se encheu de pratos com comida chinesa que agradeci, comi e partilhei com aquela família.

Lembro-me uma viagem à China com os meus pais, em que chegamos a Kunming perto da fronteira com o Vietname por volta da meia noite e que somos recebidos pelas autoridades locais com um jantar. Uma mesa redonda, eu enjoado da viagem, serviram-nos chá e no centro da mesa a carapaça de uma tartaruga virada para cima com o recheio cozinhado e um cheiro intenso. Comemos e agradecemos a generosidade e por volta das 3 da manhã estávamos no hotel, vazio, sem turistas, porque nesse tempo não havia turistas na China à excepção de meia dúzia de gatos pingados como nós. O único leite que havia era de soja, e o meu irmão de cabelos aloirados quando saía à rua era rodeado por dezenas de pessoas que lhe queriam tocar.

Mais velho percebi, nem nós temos liberdade de expressão, nem a China é marxista leninista. A China existe há milhares de anos. A revolução cultural tem umas dezenas de anos.

Claro que sendo branco, europeu, viver na China, na Coreia do Sul, no Japão, em Taiwan, ou em Singapura é óptimo. Estás no centro. Onde tudo acontece. O futuro acontece. O dinheiro existe. E permite viajar pela outra Ásia. A Tailândia por exemplo. Bangkok é a cidade que mais turistas recebe em todo o mundo. E é um país fantástico. Que nos recebe como nenhum outro lugar no mundo. Tanto ao rico como ao pobre. Os dias passados na chinatown e nos templos, as tardes na piscina, os path thais, e as singhas na rua e as massagens ao fim do dia, sempre com um sorriso e arte de bem receber.
Quando cheguei ao Camboja fui recebido com um lenço de seda ao pescoço, e um chá na varanda enquanto aguardava pelo check in.

Quem diria que este povo viveu e sobreviveu os anos do Khmer Rouge. Recebem-nos de braços abertos, humildade e alegria.  E ainda hoje é o partido do Khmer Rouge que governa este país que se mantém uma monarquia.  Não há vanglorias da liberdade, não há canções de intervenção. Há uma enorme esperança no futuro e um genuíno orgulho na história de um povo.
O mister Chi, o nosso guia, não é um pintas num tuk tuk. É alguém que ama a sua profissão,  que sabe muito da história do seu país,  muito atento aos pormenores, em particular de todo o complexo de Angkor Wat. Não há uma queixa ou uma lamúria. Apenas um profissionalismo exemplar. Sabe tudo sobre as dezenas de templos, os melhores ângulos para fotos, os melhores restaurantes. Os seus pais, professores  de profissão, viveram pessoalmente os tempos do Khmer Vermelho e de Pol Pot. Para sobreviverem esses anos, tiveram que fingir que eram agricultores, para não serem eliminados. Porque quem não fosse simplesmente agricultor era eliminado. O mister Chi lembra-se bem desses tempos de fome. Tal como se lembra dos seus avós contarem as histórias da guerra do Vietname,  quando os vietcongs usavam o Cambodja como retaguarda ao seu território. Ainda assim o mister Chi sorri, e fala sobre a sua mulher e a sua filha de 2 anos, e que a vida nunca foi tão boa como agora.

Estar em Angkor Wat, dá-nos uma perspetiva da nossa dimensão e importância. Tal como já tinha sentido 30 anos antes na grande muralha ou na cidade proibida.
Os asiáticos no geral fazem-me lembrar a minha avó que tem 94 anos, tem a 4ª classe, mas tem uma sabedoria, uma serenidade. uma experiência de vida que não se ensina .
Nós na Europa temos a História e a arte. É ótimo para vir passar umas férias. Mas falta-nos um futuro. Uma consciência coletiva. “A purpose”.

Não tenho dúvidas que o tempo, para o bem e para o mal, acabará por nos explicar a todos o que é a China. É o futuro que não nos pode escapar.

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