Miguel Caetano

Pacheco Pereira partiu ao furtivo ataque, a Família respondeu, desta feita pela escrita do meu tio avô Miguel Caetano.
O título da carta aberta dei-o eu, em tom de pergunta-resposta numa primeira pessoa vinda do ‘tio Miguel: “Tem a certeza que conheceu o meu Pai?” Eu respondo: não parece, se conhecesse não atacaria de forma tão vil.

Marcello

Meu Caro Dr. José Pacheco Pereira,
Li a sua crónica no Público de 30 de Março passado, intitulada “Conheci muito bem o seu pai, foi meu aluno”, na qual, a propósito das “famílias” governamentais e arredores, tema agora muito em voga, conta um episódio do passado, que teria como protagonista o meu pai, Marcello Caetano: “Caetano chegava à primeira aula e chamava os estudantes um a um, e interpelava-os com variantes da mesma conversa: “conheci muito bem o seu pai”; “você não é sobrinho de X? É que ele foi meu aluno”; “é da família X? O seu tio esteve comigo nos Graduados da Mocidade Portuguesa”; “o seu pai ainda está em Moçambique?”, etc., etc. De vez em quando, empancava num plebeu e não sabia o que dizer”.
Sem contestar que “Estávamos numa época em que na universidade havia apenas 4% de estudantes de famílias operárias e camponesas”, devo-lhe dizer que não conheço ninguém que tenha presenciado tal episódio.

Fui aluno de Marcello Caetano nos anos lectivos de 1952/53 (Direito Constitucional) e 1953/54 (Direito Administrativo). Dois anos antes de mim, o meu irmão José Maria, que já faleceu, foi igualmente seu aluno. Nunca assisti a tal cerimonial. Temendo que ao afirmar isto, pudesse ser acusado de falta de memória, procurei confirmar junto dum colega meu, com o tal perfil “plebeu” que vem referido no seu texto, e fiquei mais descansado: também não se recorda de tal episódio. Procurei, ainda, recolher o testemunho de dois colegas do meu irmão José Maria, os quais também confirmaram não ter presenciado tal cerimonial.
É claro que tal pode ter acontecido nos anos quarenta ou nos anos sessenta. Certamente que alguém lhe contou.

É verdade que Marcello Caetano tinha uma memória extraordinária, que fixava os nomes completos de todos os seus alunos (fazia questão de ser ele a dar as aulas práticas, onde o relacionamento com os alunos era mais personalizado, e de anotar nas cadernetas de cada um as suas apreciações). E conheci vários episódios de ele encontrar um antigo aluno, que o vinha cumprimentar, e ele de imediato dizer: “lembro-me muito bem de si, foi meu aluno no ano tal e o seu nome completo é…). Tal também acontecia em conversa, quando alguém lhe perguntava se sabia quem era fulano ou sicrano, e ele logo o situava, pelo nome, família, profissão, etc…
Mas não empacava em plebeu nenhum, pois tinha o maior respeito por aqueles que, tal como ele, vinham duma família “humilde”, e conseguiam, com bolsas de estudo ou como estudantes-trabalhadores, licenciarem-se num curso superior. Também é claro que não se esquecia daqueles que tinha conhecido na Mocidade Portuguesa, alguns dos quais o acompanharam toda a vida.

Mas retomando o tema que originou o seu texto de opinião, o das “famílias” governamentais, não consigo perceber o que o levou a escolher Marcello Caetano para demonstrar que já no passado se verificavam as mesmas concentrações familiares no governo e na vida política.
De facto, como é natural, escolheu para os seus governos alguns antigos alunos, como João Dias Rosas, Joaquim Silva Cunha ou Joaquim Silva Pinto, que não creio que pertencessem a meios sociais elitistas, embora outros, como Rui Patrício (filho de embaixador) ou Augusto Ataíde, pertencessem a famílias já conhecidas. Também chamou para o governo “jovens” que conhecera nos tempos da Mocidade Portuguesa, sendo o mais conhecido Baltazar Rebelo de Sousa, que também não pertencia aos tais meios sociais elitistas, assim como escolheu numa geração mais jovem um grupo de economistas e engenheiros, como Xavier Pintado, João Salgueiro, Costa André, Rogério Martins, nenhum deles seu aluno e nenhum com origens sociais relevantes. E, que eu saiba, nenhum destes tinha qualquer relação de parentesco entre si, nem nomeou parentes para os seus gabinetes.

É claro que não me vou esquecer do Ministro das Obras Públicas, Rui Alves da Silva Sanches, sobrinho de Marcello Caetano. Mas esclareço, para quem não saiba, que tinha feito uma carreira profissional no Ministério das Obras Públicas, com todas as promoções obtidas após concurso, e que já era secretário de Estado quando Marcello Caetano foi nomeado Presidente do Conselho. E, já agora, que foi chamado pelos governos portugueses post-25 de Abril para acompanhar a execução das obras do Alqueva, e pelo governo angolano como consultor dos planos hidráulicos que acompanhara antes da descolonização.

É claro que me alonguei mais do que o necessário. Mas como o Dr. Pacheco Pereira escolheu o meu pai como exemplo paradigmático das endogamias do regime anterior ao 25 de Abril, aproveitei para deixar tudo bem esclarecido. E, para terminar, acrescentarei apenas que nem eu nem o meu irmão obtivemos as classificações necessárias para prosseguir uma carreira académica na Faculdade de Direito.

Quanto à utilidade dos meus esclarecimentos, deixo ao seu critério a decisão de qual o uso mais adequado daquilo que escrevi.

Com os melhores cumprimentos
Miguel Caetano

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