Vamos falar de Brett Kavanaugh?

Admito que maior que a curiosidade em ler mais uma notícia sobre Harvey Weinstein, quis ver o devasso vídeo que a Sky News amplamente publicita sob a parangona:
World exclusive: Video shows Harvey Weinstein behaving inappropriately with businesswoman

E como não?, a desgraça alheia é um atractivo para nos identificarmos como dela distintos.
Só que não.

Brett Kavanaugh.jpg

Vamos falar de Brett Kavanaugh? Do afamado Harvey Weinstein, ou mesmo de Bill Cosby? Daqueles que, caídos em desgraça pelas causas sumárias em que se veem arrastados, se tornam párias da Sociedade que os alimenta e deles faz reflexo.
De um puritanismo que, com ecos justificados, ganha uma vazão mais ideológica que lógica legal.
Atenção, não me leiam como defensor de quem não merece defesa.
O ‘America’s Dad’ Bill Cosby levou justamente uma sentença de 10 anos por assalto sexual agravado. E que a mesma não pareça diminuta, já que a aplicação do crime é tão díspar e singular de Estado para Estado nos EUA que o logro de vê-lo atrás das grades é de forma total uma vitória.
Mas a vitória de um crime expõe outra verdade que o vídeo de Weinstein demostra.

Na gravação de 2011 a businesswoman de 28 anos, Melissa Thompson, não deixa de entrar no jogo de vícios e virtudes com Weinstein.
Pode que o mútuo interesse profissional que sustenta a entrevista não jogue a favor de ambos, mas o benefício da dúvida se dissipa no instante em que os toques e carícias se transformam numa dupla réplica de “Data’s so hot right?”.
Nesse momento, e no seguimento do que acaba por parecer uma concertada acção de alguém com o conhecimento de saber estra perante um predador e ainda assim preferir cair nas suas garras, fica claro que o unilateralismo da acusação não resiste.

Sobre Cosby a justiça pronunciou-se, Weinstein já foi avistado algemado, e agora Kavanaugh está sujeito ao mais rigoroso escrutínio público desde que Anita Hill foi humilhada a bel-prazer do puritano machismo trazido a bordo do Mayflower.
O facto da argumentação por bandas de Plymouth rock parecem ter esta dualidade sem ambiguidade, ou são Democratas ou Republicanos. De Esquerda ou Direita. Opostos cromáticos onde a diluição perfaz mero noire cinematográfico em sustenido sensacionalista de muito barulho e pouca conclusão realista.

Se se retirar o bias político, sem qualquer tipo de desfaçatez moral sobre o que assédio sexual seja, depreende-se que a subsequente dificuldade reside na falta de comunicação que a Sociedade se impõe. Não são os ‘dirty little secrets’ passados, one night stand via Tinder, Happen ou Grindr, ou mesmo os #sendnudes que todos negam ter mas um dia, pelo menos, receberam ou viram. A questão real é a ausente interpretação daquilo que vivemos e não sabemos comunicar.
Nem tudo é assédio sexual, nem tudo é crime passional que mereça pena capital.

Vivemos tão agarrados ao meio acrílico, ao binómio da imagem projectada na ficção política que define o mundo actual que nos perdemos sem narrativa própria.
De cidadão acusado pela própria (ex)esposa, a candidato com inúmeras alegações sobre como melhor agarrá-las ‘by the pussy’, pode que Donald Trump tenha razão em algo. O barulho sensacionalista é mesmo fake news. Só que o fake somos nós, não as news.
O facto não é alternativo e a verdade nunca será unilateral, porque (agora) anything goes
Times (really) have changed!

Times have changed
And we’ve often rewound the clock
Since the Puritans got a shock
When they landed on Plymouth Rock
If today
Any shock they should try to stem
‘Stead of landing on Plymouth Rock
Plymouth Rock would land on them

In olden days, a glimpse of stocking
Was looked on as something shocking
But now, God knows
Anything goes

Cole Porter | 1934

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