Quem cala consente

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Caro deputado João Galamba…

Disse que os casos de José Sócrates e Manuel Pinho “obviamente envergonham qualquer socialista” e que por isso o PS está “incomodado” com as suspeitas que recaem sobre antigo primeiro-ministro e o seu ex-ministro.

Quando no passado se colocou ao lado de José Sócrates e o defendeu acerrimamente acusando o Ministério Público quase de “perseguição política”, eu prometi impedir que o deputado e muitos dos seus camaradas se tentassem afastar do vosso amigo no momento que mais lhes conviessem, com o aproximar das eleições. Escrevo esta carta porque eu conheço a verdade que o senhor deputado, Carlos César, António Costa e outros camaradas transformaram num espetáculo de hipocrisia.

O mesmo João Galamba que se diz “envergonhado” foi o mesmo Galamba que entre 2013 e 2014 frequentou os famosos jantares pagos por Carlos Santos Silva, junto com José Sócrates, Vieira da Silva (atual ministro da Segurança Social) e Pedro Silva Pereira.

O mesmo João Galamba que se diz “incomodado “, foi o mesmo Galamba que em outubro de 2014, antes da Operação Marquês existir, usou a influência de deputado para avisar José Sócrates que estaria a ser investigado embora fosse um segredo de justiça.

O mesmo Galamba que recebeu 34 mil euros do governo Socrático, verbas de contratos de serviços por ajuste direto por gerir um blogue de apoio a José Sócrates, é o mesmo que vem evocar moralidades.

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Assistimos agora a um desresponsabilizar total de muitos dirigentes do partido socialista.
Carlos César, presidente da bancada parlamentar do PS, disse que sentia “raiva” da forma como alguns “abusaram do partido socialista”, mas foi dos primeiros a visitar José Sócrates na cadeia de Évora, escusando-se de fazer declarações aos jornalistas. Quem cala consente.
O homem que em tempos afirmou orgulhoso que José Sócrates sempre governou com “grande sentido patriótico”, é o mesmo que agora se diz “revoltado”.

António Costa chama-lhe atualmente “desonra da democracia”, mas agradeceu quando o mesmo o apoiou nas legislativas e não controlou os “sentimentos pelo antigo líder” ao decidir visitá-lo na cadeia de Évora.

Aproveitam sempre para relembrar, quando obrigados a comentar sobre o caso, que “o PSD também tem casos de justiça semelhantes”.
Nunca verão o PSD a organizar um almoço com mais de 500 militantes em honra de um homem acusado de 7 crimes de corrupção, logo após a sua saída de prisão preventiva. Esse só mesmo o partido socialista, que ainda conseguiu convidar alguns dos seus históricos, como Mário Soares, Almeida Santos ou Vital Moreira.

O “incómodo”, a “vergonha” e a “revolta” não foram suficientes para impedir em 2017 que atuais deputados do seu partido marcassem presença, alguns como oradores, para a apresentação do livro de José Sócrates. Deputados socialistas como Pedro Bacelar Vasconcelos, Renato Sampaio e Isabel Santos.

Outros, como o parlamentar Ascenso Simões que exigiu a condecoração de José Sócrates pelo Presidente da República ou Porfírio Silva que considerou “perfeitamente normal” o convite feito a José Sócrates depois da sua libertação em prevenção para ser orador numa conferência de socialistas sobre globalização, são parte da nova solução que vendem desde que formaram governo.
Renato Sampaio diz que “ser amigo de José Sócrates” não é “um ferrete para ele” e que junto da também deputada Edite Estrela acreditam na inocência de José Sócrates.

Eu não esqueço aquele jantar no final do ano de 2016 que juntou Augusto Santos Silva, o atual ministro dos negócios estrangeiros e mais 40 outros socialistas, atuais e antigos governantes, para homenagear José Sócrates.

Não esqueço as palavras de Ferro Rodrigues que vinte dias antes do inicio da Operação Marquês, elevou José Sócrates no parlamento a herói pela negociação do resgate financeiro. É hoje presidente da Assembleia da República.

Os que em tempos, depois de serem públicos os escândalos, trocaram o povo pela defesa de um corrupto não são alternativas para nada.

O deputado João Galamba e uma maioria dos socialistas de estrutura mascaram-se agora como vítimas, mas para mim e milhares de portugueses são igualmente culpados, uns diretamente e outros por consentimento, pelos milhões que desapareceram e pela miséria que se instalou com a governação “patriótica” do “pobre provinciano”.

O “partido socialista renovado” continua a servir-se das velhas caras que se conseguem envergonhar e simultaneamente serem amigos da vergonha. Seja na bancada parlamentar, na Direção do partido ou até a nível autárquico.
Termino com as palavras de Eurico Brilhante Dias, um dos membros da comissão política do seu PS que disse tristemente, no congresso de 2014, após a prisão de José Sócrates ter sido anunciada, esperar juntamente com a restante Direção que “quer a Justiça quer José Sócrates possam sair bem” do processo iniciado. Embora ainda não se saiba o desfecho, os portugueses não saíram bem de certeza.

Tenho dito.

Nota:Artigo de Gaspar Macedo, como publicado na sua página de facebook.

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