Nós próprios

Hipocrisia, a homenagem que o vício presta à virtude.
Vê-se que Portugal é um país de virtuosos, cheios de vícios, onde máscaras de adulação se fizeram cair para salvar a pele perante o óbvio, Sócrates é persona non grata vista a teia de interesses que nos rodeia no apanágio eleitoral que pronto chega.
Mas pior cego é aquele que não quer ver e Portugal anda com as vistas curtas.

Evidente que podemos colocar Ana Gomes num pódio jubilante por ter dado, muito tardiamente, o tiro de partida sobre a corrupção que assola o “rumo ao Socialismo” que o seu Partido se tornou, mas a vergonha dos que calaram para consentir é muito mais generalizada que se possa imaginar.

Há que compreender algo, o que nos trouxe a Liberdade actual – e quem sabe eu seja alguém que permanece (por opção, é verdade) cidadão brasileiro apesar de nascido em Portugal – não foi a Revolução de Abril. Essa trouxe manobras militares acompanhadas do anseio Comunista para substituir um Regime por outro.
O Direito à Liberdade chegou a 28 de Novembro de 1975 quando o golpe orquestrado dois dias antes pelas forças político-militares de Esquerda se veem derrotadas pela imposição da Democracia.
Soares é o conciliador, o seu PS traça o rumo ao Socialismo que define a Constituição. Cunhal é o grande derrotado, e enquanto Portugal regressa aos brandos costumes, os Comunistas comem criancinhas ao pequeno almoço.

E aqui chegamos ao provincianismo voraz que assola o território e tinge de vergonha a memória colectiva.

Em 1986 a CEE chega como bálsamo de uma jovem Democracia sedenta de dinheiro onde o binômio Socialismo/Social Democracia vive entre a falta de opção e o mesmo do seu contrário. Sai Soares de Primeiro Ministro rumo ao futuro que nos espera: o Cavaquistão.

Olhar a maioria eleitoral que elegeu Aníbal Cavaco Silva, a quebra do Bloco Central e a ascensão do X Governo são a base ideológica de uma jovem Democracia hipócrita feita de pequenos provincianos alçados ao poder Nacional.
Esse constrangimento junto do julgamento póstumo à vergonha de ter tido Cavaco em Belém por iguais dois mandatos de poder em maioria trazem um amargo de boca maior agora que se olha para Sócrates.

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Se o pesar de um país que se desenvolvia a crédito fácil vindo de futuros credores era o júbilo para os boys políticos, os sinais vindouros começavam a surgir.

Em 2008, já Sócrates era Primeiro Ministro, a Operação Furacão desvenda os crimes, fraudes e branqueamento de capitais cometidas no Banco Português de Negócios. A espoliação Estatal por parte de políticos na lógica do amiguismo fora atroz. A nacionalização atabalhoada (a 1ª desde o PREC), erro precursor para o que em 2014 se viria a passar com o BES, depois com o Banif, agora com a Caixa.

Porquê falar das inúmeras investigações criminais a que o nome de Sócrates se associou nos seus mandatos?
Por quê olhar para o político e seu séquito, corninhos parlamentares incluídos?

O manto da impunidade regeu o país mas a falência da confiança excessiva chegou e em 2011, após duas maiorias absolutas, Sócrates é derrotado face à afirmação condenatória de chamar a Troika.
Evidente que logo após, assinado o memorando e para ver cumprido o seu calendário antecipadamente, foi-se além da Troika, vontade da nova maioria Democraticamente eleita.
O Bloco Central entra em ruptura enquanto Sócrates é detido a 21 de Novembro de 2014, poucos meses após a queda do maior banco privado português, o BES.

O vitimismo da culpabilização alheia entra em cena. Sempre os outros, nunca ele mesmo. Nós próprios.

O enredo torna-se simplificado para não complicar, porque o brando não se gosta complexo e o reflexo de Narciso o matou.
A divisão ideológica entre a Direita Passista e o golpe de secretária parlamentar que formam a Geringonça Costista relegam a vergonha do voto eleitoral para o espectáculo actual.
Hipotéticos inocentes são desde logo culpados no crivo da “incompreensível e lamentável” ausência de testemunho por parte de quem se vê acusado, gerando a indignação e vergonha sobre esse que, indiciado de múltiplos crimes, governou um país como quis e lhe apeteceu.

Mas a Democracia não são apenas Direitos, são obrigações. E a maior obrigação é o escrutínio público do eleitor sobre o seu voto.

A vergonha do PS, do PSD, de todos os partidos cujas histórias lhes relegam fantasmas passados, é a mera hipocrisia Social que prefere apontar o dedo alheio à última hora que reconhecer a responsabilidade própria.
A maior vergonha de quem com Sócrates esteve é agora fazer dele o alvo fácil a abater – Fernanda Câncio chafurda a poluta alma tal ratazana em fuga – por mera virtude pública.

A verdadeira vergonha, na Sociedade Democrática actual, somos nós, esperando que tudo se resolva sem agir para que nada aconteça. Hipócritas.

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