SUORES [NSFW]

Todos suamos.
Uns mais, outros menos.
Correção, há os que não suam. Mas esses sofrem de uma condição rara – anidrose – que faz com que as suas glândulas sudoríparas não funcionem como assim deve ser, mas fora esses, retorno, todos suamos.
Suamos de formas que tais que nos incomoda, dá prazer ou até aflige.

Na verdade o suor é a lubrificante da mecânica Humana. A matéria pela qual se expele o sentimento da pele.
É ele a erotização que concebe três estórias sem farpas mas com aspas. Aspas de textos passados.
Um nós, homo, erótico, vulgar, a nu.
Todos suamos.

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SUOR FRIO

Tocavas-me com essas mãos frias, e sentia um arrepio nas costas. Tu querias-me despida, nua e erótica, como uma daquelas vulgares que vês passar na rua. Mal sabes tu da verdade daquelas a quem chamas atraentes. São vulgares e descomedidas as vigaristas de arrastão que se vendem naquela subida. Também eu me sinto assim de vulgar e petulante quando essa mão fria me percorre a espinha. Também eu me transformo na fantasia lúdica de uma falsa travesti.
Olhas-me de soslaio, e eu ponho-me em posição de retaguarda. Desprotegida e vulgar. Sempre vulgar, como um rapazinho imberbe de meias e saltos altos.
Turvas-me a visão, e o cinza das paredes arrasta-se até aos lençóis que nos recortam nas sombras projectadas.

Já não sei qual o meu sexo. Serei a mulher que quero ser, ou o homem que desejas? Sou ambos e mútuos. Declinar da clivagem que te define.
Aceitas-me de peruca loira. Afagas o cabelo acrílico e queres que te usufrua.
Os dedos frios tocam-me o lóbulo da orelha como carinho de um afecto que não sentes.
O suor entre nós gera-se, mas não aquece a alma.
Grito no instante incestuoso: possuis-me e fazes de mim tua mulher. Sou fêmea despudorada, envolvente e enlaçada em ti. Agarras-me no lombo vergado. Mãos frias coração quente. Sentido de nós em mim.

SUOR ERÓTICO

O suor escorre-me pelo rosto, quente e húmido, pegajoso. Vejo corpos movendo-se por entre as sombras, atrás de cortinas em tiras de couro, cheiro plástico e artificial.
Hoje são as genéricas que dominam o espaço, e claro, a mim calhou-me uma. Sinto-me a autêntica prostituta barata que se entrega ao primeiro que passa, mas na verdade perscruto o espaço, apalpando caminho para descobrir aquele que me tomará de ré.
Está feita a escolha e vai o mais fácil, hoje não estou difícil, meramente necessitado, e uma boa verga que me preencha enche as medidas.
Vejo maricas enclausurados ficarem com inveja, mas assim é feita a vida, de escolhas e oportunidades. Quem diria que olhando pra mim, neste corpo desfeito, rotundo e anafado, seria eu a levar a genérica mais abonada para o saco. A minha reputação persiste e aguento com o que vier. Disso me gabo pra lista de conquistas momentâneas.

Pena que a vida não é como aqui dentro, em que os corpos se cruzam e se sentem. Que os suores lubrificam e as línguas se soltam das suas amarras.
Tudo é vazio e superficial e cheira a sexo barato.
Parece um gole de cerveja mortiça, com espuma ressequida no rebordo do copo. Gosto e volto sempre que a vontade aperta.
Há dias e dias e hoje restringi-me ao essencial que uma foda bem dada tem. Entreguei-me uma vez apenas, mas que entrega. Estou desfeito e montado em pedaços.
Os pingos do suor que me escorre agora pelas costas acumulam-se no banco em vinil onde estou sentado a escrever este desabafo.

Penso em deixar estes escritos para outro que apareça e os queira completar. Tal como eu hoje me completei. A frio e sem envolvência emocional.

SUOR QUENTE

Prendia-me o meu ser que com o teu se enlaçava, e nesse suspiro contido te dizia toda a minha verdade.
Era um ser poético e em busca de respostas que me abreviassem as emoções. Estava mudo, mas nesse silêncio contemplavas-me a existência mortal.
Era a música que se escutava a ser criada por nós.
Doce abraço no balanço das ondas matinais. A noite deixara de o ser e o dia alongava-se como as tuas pernas junto das minhas.
Aninhava-me de formas e feitios que tais. Queria que este dia pra sempre durasse e entre nós apenas existisse o hálito dos nossos corpos.
Suo e quero-te. Sempre comigo.

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