A banalização do crime

Inês Serra Lopes.jpg
Lembro-me de, pequena, ouvir o Raúl Solnado explicar que havia basicamente duas anedotas. Só duas. O resto eram meras declinações…
Em muita da música dita ligeira passa-se algo semelhante… Esta reflexão surge, claro, a propósito dos alegados plágios do Tony Carreira.

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Comecei como jornalista no final dos anos 80, numa revista que já não existe, para preencher o lugar deixado vago precisamente por uma pessoa que tinha sido dispensada por ter plagiado uma reportagem internacional do princípio ao fim. O director, Joaquim Letria, não perdoou. Desde aí, poucas coisas me enervam tanto quanto o plágio: quem não sabe escrever melhor, tem bom remédio, escreve pior… ou não escreve mesmo!
Mas há plágio e “plágio”… uma coisa é plágio, outra é imitação. E, dentro das imitações, nem todas são ilegítimas, muito menos criminosas. Os direitos de autor e direitos conexos têm hoje um alcance e expressão até aqui impensável. A crescente tutela penal dos direitos de autor e dos direitos vizinhos não é isenta de críticas e representa um pouco o que o Direito talvez não devesse ser: a lei a caminhar muito à frente da sociedade, ao invés de a reflectir e ordenar.

Voltando a Tony Carreira, só conheço o teor da acusação contra ele (aliás, supostamente contra o cidadão António Manuel Mateus Antunes) pela notícia da LUSA. Mas o caso cheira a excesso de zelo por todos os lados…
Se o Ministério Público se vira para a música “menos original”, o que será de toda a música pimba que se refaz, reproduz, se readapta e se copia à velocidade da luz? E da música electrónica, que se faz ali, na hora, com base em milhares de outras músicas e sons já existentes, gravados e “protegidos”?
Estou a ver a Procuradoria Geral da República a acusar centenas de autores de reggaeton… Aquilo basicamente são duas ou três músicas infinitamente reproduzidas e re-arranjadas.
Fico à espera desse bravo MP, que trará a Portugal uma nova espécie de criminosos: os músicos e cantores de sucesso com menos inspiração, tempo, vontade de inovar ou mera falta de cautela. Aí é que Lisboa estará mesmo no centro do mundo!
Até lá, talvez não fosse mau dedicarem-se a crimes mais.. hummm, digamos… relevantes para a sociedade?!?

Será que a Justiça não percebe um paradoxo tão simples desta banalização do crime? Se somos todos criminosos, nenhum de nós é criminoso!

Inês Serra Lopes, aqui plagiada – ou na verdade usurpada com consentimento – do seu texto em rede social, partilhada pela sua acutilância.

Com orgulho editorial leio que a Visão se apropriou e fez uso do mesmo texto, republicando-o para o grande Público! 😉

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