colarinhos

Não é por mero acaso que Evita chamou aos ‘seus’ de descamisados, aos operários que faziam jubilar o seu dom de retórica feito oratória, da meretriz feita artista de rádio e cinema, amante certeira, mulher de general e política exímia, a Péron que nunca se deveria evitar. É que o colarinho define o status quo que divide e designa a Sociedade no seu trato e contrato.

Não é por um mero acaso que a classe operária usa colarinho azul enquanto a letrada usa-o branco, imaculado quanto a sua arte e capacidade em definir o nome pelo qual o crime financeiro ficou conhecido.
Se hoje se fazem parangonas noticiosas com música em tom tele-dramaturgico, o Assalto ao Castelo que os ‘crimes de colarinho branco’ nele reservados suscitam uma maturação de pensamento colectivo.

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Após a derrocada do BES pelo seu financiamento ao GES, agora sabe-se pela transferência de capitais Angolanos através da sua filial no Dubai, uma torrente de responsáveis surgia sem que responsabilidades existissem.

Colarinhos brancos, engomados e bem passados, faziam-se apresentar com a justificativa para um passa-culpas centralizador de responsabilidades. Se o primo Ricciardi havia denunciado por querer – embora hoje o negue – ocupar o trono do Castelo, todos faziam apontar o dedo ao colarinho de Salgado.
Havia sido ele o infractor que teria ido atrás dos descamisados aforradores desse tal de papel comercial que financiou os vícios de um Banco em apuros.

A incúria do Banco de Portugal, ao que consta, deixou que tudo – desde tempos de Sócrates – lhe passasse debaixo de camisa abotoada, com colarinho a fazer par. Já a incúria de Pedro Coelho, no 3º episódio da sua Grande Reportagem, quando diz que foi o Governo Angolano quem retirou a garantia soberana que maquilharia as contas do BES, possivelmente resgatando o GES, demonstram alinhamento político.
O facto é que nem tudo se centra em Salgado ou, como agora se tenta fazer passar, em Carlos Costa. É facto que foi o Governador quem, aquando da resolução do Banco, declarou a garantia como tóxica, gerando muitos dos problemas jurídicos que ambos os países têm enfrentado desde então.

É justo deste tipo de comportamento, nesta intromissão circunstancial quando dá jeito, que surge esta dinâmica dos culpados absolutos. Dos colarinhos brancos a serem abatidos e sobre os quais nunca nada acontece.

A Administração Executiva do Banco Espírito Santo era constituída por 10 elementos – Ricardo Salgado, Amílcar Morais Pires, José Manuel Espírito Santo, António Souto, Rui Silveira, José Martins, João Freixa, Joaquim Goes, José Maria Ricciardi e Stanislas Ribes -, 9 já julgados pela gestão danosa no acto da sua profissão face ao regulador, mas será sempre de Salgado que todos se lembram. Era dele o maior, melhor e irrepreensível colarinho que alguma vez se vira usar.

“Não se dizia não ao dr. Ricardo Salgado” – dizia-lhe a arraia miúda, agora em busca de fugir ao julgamento popular.
E num ápice todos têm a vontade de se tornar descamisados, retirar o colarinho para que não se lhes mande para o xelindró.

Mas a questão que segura o colarinho no seu lugar, tal como todo este texto elencado nessa diva populista, heroína de um povo sedento da vingança de quem mais tinha face àqueles que (ainda) não haviam nada alcançado, é justo esse botão que nunca se aperta atrás do nó da gravata. É que os colarinhos andam, quase, sempre frouxos…

As supervisões falham, os ilícitos acontecem, a traição transforma-se na nova norma.
Suporia mesmo que Ricardo salgou tudo em sua volta com uma delação premiada ao jeito latino-americano, fazendo de pontas soltas Socráticas o enredo que – nesse Castelo ocupado por Carlos Costa em turno Socialista de António Costa – o tornam no mais novo descamisado onde o seu maior ‘crime de colarinho branco’ será ser igual a um de nós, igualmente provocado por uma qualquer Evita cantarolando Politics, ‘The Art of the Possible’.

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