The Orwell Net

Hoje publico um inédito na farpa, presente numa longínqua memória das redes sociais em Dezembro de 2014, um texto onde, como explico na sua introdução, pretende ser menos erudito e mais próximo dos leitores cinéfilos de uma actualidade que por vezes me escapa.

Certo será que ando nesse amplo debate acerca do mínimo denominador comum e, re-apropriando-me deste texto, queria que a proximidade tangível se alastrasse para um pensamento maior, quiçá mais acessível na sua linguagem, mas sempre ponderando o enriquecimento do individuo.

Big Brother Eye.jpg

Muitas vezes uso exemplos eruditos para ilustrar os meus comentários, facto que torna a leitura daquilo que digo chata para a maioria.
Parece que vivo num mundo que não é o meu, e que não acompanho as invenções da actualidade.
Daí, vou fazer uma curta dissertação (nonsense, uma vez que dissertar é escrever sim algo extenso) com o uso a um exemplo corrente e de cultura popular.

Muitos se lembram do filme de 1995 ‘The Net’, A Rede, em que Angela Bennet, interpretada por Sandra Bullock, é uma programadora informática que recebe, inadvertidamente, um software secreto que porá em risco a vida de milhões.
No desenlace da narrativa, ela vê-se a braços num jogo de contra espionagem onde a sua identidade, contida em ficheiros electrónicos através da internet, é apagada, e Angela passa a não existir.
O filme, cujo fim não vou revelar, tem como base esse conceito ‘Orwelliano’ do ‘Big Brother’. E não, não é o programa de televisão. Antes o livro que o autor, George Orwell, escreveu em 1949, intitulado ‘1984’, em que uma sociedade utópica viveria sob o comando de um ‘Grande Irmão’ todo controlador.

Com relativa antecedência, Orwell fez uma previsão daquilo que está a ser o sistema de controlo total que se sente, e ‘não’ vê, um pouco pelo mundo a fora.
E nós não ficámos de fora…

Os Portugueses também se podem orgulhar de fazer parte do sistema mundial de controlo total tal como Orwell previu, ou sem ser tão erudito, como aconteceu a Sandra Bullock no filme ‘The Net’.

Assim, aqui pela Terra dos Descobrimentos, sempre se soube aliar uma boa ideia com a função a desempenhar, tudo com um objectivo facilitista.
Porventura o exemplo clássico mais falado é a caravela, invenção portuguesa do século XV, que permitiu toda a epopeia marítima Portuguesa.

Mas como o mundo contemporâneo faz-se da actualidade, passo a óbvia conjectura redundante, o que me interessa frisar são as invenções nacionais que mais contribuíram para o sistema mundial de controlo das massas.
Desta forma existem três grandes invenções comprovadamente portuguesas que fazem parte do quotidiano de qualquer cidadão de ‘primeiro’ mundo, e que lhe controlam a vida sem que ele, sequer, dê por isso.

A mais antiga, remontando a Setembro de 1985, é a invenção do sistema multibanco.

Apesar do sistema de caixas automáticos ser invenção americana patenteada nos anos 1930, só é utilizada formalmente pelo Barclays em Londres em 1967. Ainda assim o sistema era limitado, e os Portugueses adicionaram-lhe uma série de funções que fizeram do multibanco (vulgarmente conhecido pela sigla inglesa ATM) no mecanismo bancário mais importante do século XX.
Hoje ir a um banco passa mais pelo contacto com uma caixa automática do que pelo contacto com um Ser Humano, assim como pelo controlo informático que deixamos com os nossos cartões de débito/credito e as suas passwords.

As duas invenções que se seguem competem entre si, uma vez que ficam dependentes da primeira, ainda que não se saiba bem a qual dar mais importância. Vou por ordem cronológica.

Em 1991, após surgir uma nova concessão privada de construção de estradas, a Brisa, surge com ela o sistema Via Verde. Este projecto experimental desenvolvido pelos alunos da Faculdade de Aveiro tinha como ideia não se parar nas portagens das auto-estradas, mas antes, através de um sistemas de identificação colocado no veiculo, activar um pagamento automática na passagem das mesmas através de um sinal de rádio. Com a sucessiva informatização dos sistemas bancários todo o sistema foi possível, e hoje a Via Verde não só serve para pagar as portagens, mas para pagar estacionamentos e gasolina, entre outras coisas.

Depois, a 7 de Setembro de 1995, a extinta TMN (Telecomunicações Móveis Nacionais) lança mais uma invenção nacional que viria a mudar a concepção dos telefones móveis no mundo: o cartão pré-pago Mimo. Pela primeira vez permitiu-se a não fidelização a um pacote, assim como ao cliente pagar o seu custo mensal, ou até ao gasto no cartão, daquilo que fazia em chamadas telefónicas. Por outro lado, deu acesso livre a todos os que queriam, anonimamente, ter um telefone móvel sem se cadastrarem.
Nunca mais o serviço de telecomunicações móveis foi o mesmo em Portugal ou no Mundo, e isso é evidente pelo número de telefones móveis existentes no planeta Terra.

Mas as invenções Portuguesas, que mesmo sendo extremamente boas são um reflexo do controlo secreto que existe sobre a Sociedade e todos os paços e movimentos que fazemos, consegue se superar, e no ano de 2014, pela voz do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio, se anuncia a invenção de um novo sistema de controlo fiscal Português, desde já cobiçado pela União Europeia.
O mistério ainda não foi integralmente desvendado, mas alinhava-se da seguinte forma, não fosse o orgulho do membro do Governo na sua apresentação: o novo sistema de controlo fiscal informatizado, não só fará a cobrança automática dos impostos, como, antes mesmo que as Empresas (ainda é só para o mercado empresarial) entreguem as suas contas, o Estado Português sabe de antemão o valor em divida, e não sendo essa estimativa (palavra, inocente, minha) paga, uma cobrança coerciva, seguida de penhora, efectuada automaticamente por sistema informática sem que ninguém, entenda-se olhar Humano, a comprove.

Tentei não ser erudito, e usar, como na introdução, um exemplo mais comum e de compreensão lata como um filme de Hollywood, mas vou terminar com um dos exemplos mais importantes da literatura futurista, o ‘1984’ de George Orwell de que falei, onde surge o famoso Big Brother.

Transcrevendo o manifesto mais emblemático da obra:

‘Big Brother is watching you.’

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