A Solidão

Há fenómenos de afeição auditiva que nos cativam sem nenhuma explicação. O gosto musical é tão relativo quanto o apreço que se tem pela moda, o relativismo que um momento tem na vida de alguém.
Certo é que eu não serei, declaradamente, a pessoa com o “melhor” gosto musical, mas há canções – e uso o termo propositadamente – que me prendem e trazem momentos de um imaginário qualquer em que tudo é representativo dessa positividade que sinto ser.

O verão de 1993 não tem nada de muito especial, na verdade nem sequer me lembro muito dele. Recordo a felicidade em ser o momento de transição entre terminar a 4ª Classe e passar para o primeiro ano do ciclo preparatório, o 5º ano de escolaridade. Terminavam os maléficos ditados, a imposição de uma humilhação por dar erros de português, os concursos da tabuada, o ter de decorar ao invés de aprender e seguir uma intuição.

Solitudine.gif

Nesse ano, distante da minha realidade, do meu conhecimento ou capacidade analítica, Laura Pausini ganhava o 43º Festival de Sanremo em Itália com a canção La Solitudine.
Os acordes melodiosos sobre a triste história da partida de Marco, um amor adolescente que provoca a solidão de Laura, conquistaram o coração do juri.
Naquele palco em concha mezzo acústica envolta numa colunata com bustos de Deuses, entre treliças brancas e tromp l’oeils retro-iluminados esbatidos com luz neon, a orquestra emoldurava a cantora, vestida num blazer branco com apliques militares encarnados em cornucópias e estrelas, cantando a plenos pulmões. Era a primeira noite, uma selecção ainda sem o fogo que a vitória lhe trouxe.

No dia seguinte, vitoriosa, envergando novo blazer em sarja azul marinho debruado a pesponto branco com botões ‘oversize’, Laura reverberava a confiança que a música, em si, não continha.
Se uma falava sobre a solidão, ela ali, sozinha, conquistava todos.

Depois do exito em Sanremo seguiu-se o sucesso mundial. Nesse verão a música era a solidão revista num video clipe onde a praia de Ostia figurava num pontão em que Laura, cabelo abundante ao vento, cantava entre turistas que, displicentes dela, serviam de entorno.
A versão era menos pujante que a vitoriosa, mas chegaria num cd com todas as canções num reconhecível espanhol. Era o possível para se compreender. Ou para eu achar que sim.

Não sei se na verdade o compreendi. Nem sei se a música me conquistou como conquistou o juri naquele dia em Sanremo. Sei é que a solidão de que Laura canta, mesmo sem que algo palpável ou real exista nessa história de Marco, no comboio que logo cedo pela manhã parte sem ele, o coração de metal e sem alma que torna a cidade cinza e fria, fazem parte de uma alegria desse tempo em que algo melhor havia.

É ficção, é a construção sensitiva de uma memória criada em torno de fragmentos do que é viver em solidão, da vida sem ti – esse outro que nunca existe mas sempre está dentro de nós.
É ter 10 anos, rumo a 11, sair da primária e entrar no segundo ciclo.
Não ter mais ditados, não ter um recreio fechado. Estar livre de ir à quinta dentro do colégio.
Viver as primeiras responsabilidades.
Crescer.

“E a inquietude de viver a vida sem ti.
Peço-te: espera-me, porque eu não posso estar sem ti.
Não é possível dividir a história de nós dois. A solidão.”

23 anos depois é voltar a crescer de novo.
Abraçar novos desafios. Assinar novos contratos…
Recordar sempre esse momento cristalizado no tempo: algo bom está para acontecer.

Anúncios

One Comment Add yours

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s