Il Gattopardo

“O leopardo quando morre deixa a sua pele. E um homem quando morre deixa a sua reputação.”

O ex Dono Disto Tudo começava assim o seu eloquente depoimento na fatídica noite de 8 para 9 de Dezembro de 2014.
Seguramente Ricardo Salgado nunca lera o magno opus de Giuseppe Tomasi di Lampedusa Il Gattopardo, nem o seu Leopardo seria Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina.
Caso fosse, a introdução premonitória sobre reputações, nomeadamente sobre todo o desastre que viria a se passar na banca portuguesa, copiaria o mote do Brasão da família Tomasi:

“Nós fomos os Leopardos, os Leões; quem nos substituirá serão os pequenos chacais, as hienas; e todos – Leopardos, chacais e ovelhas – continuaremos a acreditar que somos o sal da terra.”

A reputação sai-nos sempre salgada, e mantê-la frente ao presente, sobrepõe-se ao passar deste tempo que não pára.
O mal de Don Fabrizio é o trunfo de um pecado contemporâneo: sobreviver face ao paradigma que insiste em não fazer essa valsa acabar.

Il Gattopardo

Assistimos hoje a essa cena mítica de Luchino Visconti e do seu Leopardo. Estamos no, quase, interminável baile de apresentação de Angelica Sedara à Alta Sociedade Siciliana. A rica burguesa irá casar com Tancredi, sobrinho de Salina. Tudo nos parece remotamente similar, remotamente parecido.
Tudo transita nesse mundo feito de Leopardos e Leões que mais não o são.

Pode Angelica, uma Claudia Cardinale jovem e voluptuosa, estar a dançar com um Burt Lancaster envelhecido, mas essa transição entre o poder reinante e cessante demonstra a fragilidade do respeito frente à conquista do capital.
Num breve instante até se crê real.

Só que do sal da terra nada cresce, e porventura, nessa analogia ao Brasão da Família que outrora foi, quem nela tenta semear um futuro, infertilidade encontrará.

A vida real não é como a política e o destino do Leopardo não termina com a sucessão d’“O Rei está morto, Viva o Rei!”.

O Leopardo morre. Mas também o Leão, o chacal e a hiena. E junto com eles as respectivas reputações.
Frente à intransigência financeira actual, num sistema bancário reputacional cuja idoneidade é questão de análise exterior ao reflexo individual, que relevância tem a sua importância?

Olhar a Sociedade Portuguesa nesta transição política actual é assistir ao desfecho camuflado da insolvência premeditada por Salina ao dançar a valsa com Angelica.
Naquele instante em que se crê real, rápido percebe que o seu tempo acabou.

Não é o passado que não será lembrado. É o futuro que fará por se sobrepor e esquecer que um dia existimos.

Portugal entregará os desígnios de um futuro ao passado desta máquina fiscal que nos corrói e mata.
Somos o justo espelho das reputações estripadas feito leopardos que fomos, entregues a hienas e olhados por chacais.

Resta saber até quando a calmaria permanecerá nesta parcimónia feito valsa interminável.

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