Acredito que todos somos, de uma forma ou de outra, hipócritas. Se não por imposição social – fica bem parecer bem -; por comodismo num mundo cada vez mais vivido atrás de ecrãs de virtualidade dúbia.

Podia até fazer do título desta crónica o paralelo com o que o ‘Douto’ Francisco Louça disse sobre a contaminação das redes sociais por parte da “direita” com a perseguição que o Senhor meu Pai passou por um vídeo do esquerda.net e a alusão de que estaria metido numa inexistente corrupção dos submarinos, mas isso seria, como mencionei, hipocrita da minha parte. Prefiro deixar as águas se evaporarem e centrar-me em algo maior, que relativiza esse pensamento do Nacional-coitado como uma apologia para nos expugnar dos pecados alheios.

Aproveitando uma pausa de férias, fui seguindo o terrível caso do actor Ângelo Rodrigues pela incessante exploração mediática que ia tendo.

Enquanto da tragédia fui tirando o positivo sobre aprender a viver num corpo que longe fica do que aos (impossíveis) cânones de beleza física se me impõem (a dita pré-crise dos 40 de quem vive à quase 10 num cocktail de anti-depressivos e antiretrovirais), rápido fui constatando que pelas caixas de comentários noticiosos a expressão “melhoras rápidas” eram uma constante.

Compreenda-se, não desejo mal a ninguém, sobretudo a um actor que, mesmo desconhecendo, tem uma tão grande legião de admiradores e fãs.

Aquilo que rebato e, como publiquei e tom de questão retórica é:

‘Mas porque desejam as pessoas as melhoras a alguém que não conhecem, cujo o sentimento é tão vão quanto esse reflexo da perfeição que o próprio buscava alcançar.
Se querem as suas melhoras vão visitá-lo, mandem-lhe uma mensagem pessoal, não encham caixas de comentários com “melhoras” para um personagem da ficção que descobriu a dura realidade em ser “real”.’

No que foi uma farpa veraneante, até inócua, a polémica instalou-se ao ponto daquilo que escrevi ser interpretado como uma censura ao Direito de Liberdade de Expressão e, imagine-se, que eu ficaria bem no Tarrafal.
Volta Salazar. E traz o lápis azul!

Evidente que uma minoria se sentiu acossava ao não compreender o que escrevi, como se não sentisse algum sentimento de compaixão visível.

Eu sinto, mas com quem conheço, ou a não conhecer, esforço-me por demonstrar esse reconhecimento de forma tangível sem que seja público.
Um pouco como a caridade. Faz-se, não se anuncia.

E aqui entramos nessa perfeita hipocrisia portuguesa. Depois de vasculharem o meu perfil a questão chegou:
Como pode alguém que é seropositivo vir atirar pedras a alguém que se encontra em coma induzido?
Onde está a “pessoa humana” (sic) em mim?

Perceba-se, uma coisa é a família, os seus próximos, tomarem a iniciativa de divulgar o seu estado de saúde em lugar próprio. Outra pior é a exploração mediática.
A comiseração nacional em torno da figura pública – famoso mas um desconhecido em privado -, os “melhoras rápidas” e preocupações humanistas, revelam a falsidade de que se constrói a Sociedade. Se antes eram as carpideiras nos velórios, agora são os beneméritos das redes sociais.
Eu assumo-me como seropositivo, nunca pedindo apupos ou elogios, porque esse é o meu modo de estar.

Pergunta-se; não fosse um caso mediático e antes uma noticia de roda-pé, estariam as caixas de comentários cheias de ‘melhoras’ a um qualquer anónimo? Seriam todos tão ‘Humanos’?

A questão centra-se justo na resposta à pergunta sobre o mediatismo da notícia vrs uma vã comoção nacional.

Não sei se há um ADN fatalista português, tão patente no fado, mas a tragédia atrai este tipo de reações. Pior, demonstra a hipocrisia patente na Sociedade.
A se “enviariam ‘melhoras’ a um qualquer anónimo, notícia de roda-pé?” a resposta é simples: Não. Ou a fazê-lo seria dentro do núcleo social onde ocorreu esse problema decorreu.

Regressando a este caso, embora se compreenda o ‘nobre sentimento’ que se transmite, ele não passa mais do reflexo automático de uma Sociedade actuando por impulso do que genuinamente acreditando no que escreve.
O acto benemérito, a boa ação do dia, expurgando um pecado à vez.
Resolve algo? Não, mas, como se diz, fica sempre bem.
E aquilo que no brando Portugal do Socialismo de ‘76 se quer, é estar bem, poucochinho, mas bem.

Nota:
A publicação da crónica foi atrasada uma vez que o cabeleireiro Eduardo Beauté faleceu entretanto e, em reflexo dos “rápidas melhoras”, nas caixas de comentários surgiram “paz à sua alma” e RIP. Interessante foi a projecção que, como excepção à regra da perfeita hipocrisia humana, os comentários depreciativos, críticas ao cabeleireiro e aos seus amigos que lhe deixaram mensagens de despedida, terem tido na cobertura jornalística.
De facto somos uma Sociedade que atira pedras sobre telhados de vidro.

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