The Enemy of the People

Criou-se esta ideia renitente que a imprensa é o inimigo do Povo. Como se a má gestão política do que é de todos – nesse pressuposto sufragado democraticamente – coubesse ao 4º poder e não a quem de direito.

A narrativa tem sido uma rotina: facto relevante que contradiz o princípio ideológico apregoado; descontextualização de factos; omissões deliberadas; mentiras, fake news.
O político é a vítima da máquina que o sustenta, por tal ataca-a. Como se a justa cobrança que o Fourth Estate faz – na omissão de um Povo cada vez mais incidente na crítica digital e menos na urna fosse a razão dos sucessivos desaires políticos – validasse páginas como os Truques da Imprensa Portuguesa ou o Info Wars nesse argumento do inimigo popular.

Evidente (óbvio!) que não.
E tal como anos atrás os Truques foram expostos na sua contradição de um anonimato que escondia o patrocínio político que lançava o candidato a Presidente Sampaio da Novoa, o Info Wars viu-se banido da maioria das plataformas digitais que consideram o seu conteúdo fonte de conspiração e ódio.
Enquanto por cá os Truques ganharam esse elã da ‘excepção que confirma a regra’ (ou nem tanto), o Info Wars entra no rol dos censurados em Democracia. E a questão coloca-se: Devemos banir quem diferente de nós pensa? Mesmo que a sua retórica alimente uma franja de fanatismo baseado na mera teoria da conspiração?

Sou peremptório sobre o tema: não.
Da mesma forma que a censura sobre a imprensa em Ditadura é algo nefasto, pensar que o mesmo seja aplicado em Democracia, nomeadamente a cidadãos que exercem o seu Direito de Liberdade de Expressão, é ainda pior.
Mas aqui entra essa “excepção que confirma a regra”. O viés político que o Truques tem desmascara qualquer boa intenção tida na sua suposta isenção apregoada (como o tentam, ainda, justificar nos dias de hoje), assim como a meta realidade net-vendida por Alex Jones coloca em risco real a vida de terceiros ao ponto de censurá-lo ser justificado.

Compreenda-se, um crime não é na sua maioria o mero acto em si, antes quem coadjuva para que o mesmo ocorra.
Este ano a página de classificados backpage.com – originalmente parte do grupo Vilage Voice Media – foi encerrada pelo Departamento de Justiça dos EUA porque na sua secção de adultos se praticava o tráfico de menores a coberto da 1ª Emenda da Constituição, Liberdade de Expressão.

Só que Liberdade não é o seu excesso, nem tão pouco a contradição que a mesma traz.

O ataque que ocorre aos meios de comunicação prende-se com isto, com a capacidade de, na sua maioria, manterem um princípio deontológico de ética que falta naqueles que se vêem contraditados e não logram assumir o seu erro e pedir – se assim for o caso – desculpa.

Ainda esta semana 350 jornais Norte Americanos se juntaram em protesto contra a retórica Presidencial para ver Trump recorrer ao seu jargão ‘fake news’ questionando a honestidade da liberdade de expressão numa imprensa livre.

Mas nem só nos Estados Unidos a dúvida sobre a Liberdade se coloca. Nós por cá temos os políticos contraditos que de pronto chamam à imprensa mentirosa ou se apressam a dizer que o que disseram não foi bem o que queriam ou na verdade disseram.

Catarina Martins desmascarou-se enquanto o Primeiro Ministro logrou ser mais raso que no ano anterior, transformando a excepção do que corre mal na sua regra de triunfos momentâneos.
Chegámos ao ponto dos aliados parlamentares censurarem a participação de Marine Le Pen na Web Summit baseado no facto da mesma, por ter o apoio do Governo, ir em contra os princípios ideológicos por si professados.
A Liberdade de expressão não é para quem pode, antes para quem convém, sempre a bem da Nação.

Num repente os factos passam a fake news para serem meta realidades prontas para campanha política.

E aqui chegamos, ao reduto do político, onde ele vive e faz por (sobre)viver, actualmente em permanência, a campanha política. Assim, ser contraditado é para si mortal. Por tal pergunta-se: quem é o ‘enemy of the people’; aquele que se faz excepção quando o mal ocorre, ou quem dele nos avisa?

Inimigos do Povo são os que por ele não gostam ser escrutinados. Tudo mais é omissão e entretenimento viral.
Liberdade censurada.

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