Hipócrates e a Liberdade de Expressão

“Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Hígia, por Panaceia e por todos os deuses e deusas que acato este juramento e que o procurarei cumprir com todas as minhas forças físicas e intelectuais,

Honrarei o professor que me ensinar esta arte como os meus próprios pais; partilharei com ele os alimentos e auxiliá-lo-ei nas suas carências,

Estimarei os filhos dele como irmãos e, se quiserem aprender esta arte, ensiná-la-ei sem contrato ou remuneração.

A partir de regras, lições e outros processos ensinarei o conhecimento global da medicina, tanto aos meus filhos e aos daquele que me ensinar, como aos alunos abrangidos por contrato e por juramento médico, mas a mais ninguém.

A vida que professar será para benefício dos doentes e para o meu próprio bem, nunca para prejuízo deles ou com malévolos propósitos.

Mesmo instado, não darei droga mortífera nem a aconselharei; também não darei pessário abortivo às mulheres.

Guardarei castidade e santidade na minha vida e na minha profissão.

Operarei os que sofrem de cálculos, mas só em condições especiais; porém, permitirei que esta operação seja feita pelos praticantes nos cadáveres,

Em todas as casas em que entrar, fá-lo-ei apenas para benefício dos doentes, evitando todo o mal voluntário e a corrupção, especialmente a sedução das mulheres, dos homens, das crianças e dos servos,

Sobre aquilo que vir ou ouvir respeitante à vida dos doentes, no exercício da minha profissão ou fora dela, e que não convenha que seja divulgado, guardarei silêncio como um segredo religioso,

Se eu respeitar este juramento e não o violar, serei digno de gozar de reputação entre os homens em todos os tempos; se o transgredir ou violar que me aconteça o contrário.”

Este é o Juramento de Hipócrates que o então licenciado António Gentil Martins leu como forma de garantir as melhores práticas pessoais e profissionais sobre a sua, agora, profissão.
Lendo-o, e quem sabe tendo o distanciamento de que o Professor Doutor o jurou nos idos de 1953, se compreenda algum dos desfasamento face ao que hoje em dia não é a crença em virtuosismo machista, mas onde a Ciência e os factos de uma Sociedade muito mais compreensiva e de acordo com parâmetros de paridade e proximidade nos tornam melhores e não em categorizações anómalas. Mais, este juramento é uma transcrição adaptada da original do séc V a.C., re-escrita em Lausana em 1771, não tendo sofrido alterações de fundo.
Reconheça-se que o domínio do Sagrado prevalecia sobre o Cientifico.

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Entrando numa questão subsequente, e tendo em vista não o mero criticar por criticar – uma vez que a obra de Gentil Martins não tem par e fazer com que as suas crenças pessoais no crepúsculo da sua carreira a tingam dessa forma -, o Juramento de Hipócrates sob o qual hoje as novas gerações são admitidas como Membros da Profissão Médica é a versão rectificada de 1983.

“Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade.

Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.


Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.


A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação.


Mesmo após a morte do doente respeitarei os segredos que me tiver confiado.


Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica.


Os meus Colegas serão meus irmãos.”


Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político, ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente.


Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana desde o seu início, mesmo sob ameaça e não farei uso dos meus conhecimentos Médicos contra as leis da Humanidade.

Faço estas promessas solenemente, livremente e sob a minha honra.


Não sei se a alteração do Juramento, que em quase toda a maioria dos países Ocidentais já foi aplicada, se deveu ao surto do virus do HIV no início da década de 1980, mas o facto é que a doença foi de imediato conectada com a Comunidade Homossexual.
Há época a luta pelos Direitos de uma minoria que se procurava ver reconhecida como igual foi de encontro com um vírus rapidamente transformado numa doença que a Comunidade Médica tardava em reconhecer.
Mas o que pareceu tarde hoje está próximo.
Vírus da Imunodeficiência Humana não era pertença exclusiva dos gays. E se em 1977 a Homossexualidade era denominada uma doença mental, a 17 de Maio de 1990 a Assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde retirou-a da sua lista de doenças, sendo que em 1991 a Amnistia Internacional passou a considerar a discriminação contra homossexuais uma violação aos Direitos Humanos.

Mas é aqui que os Direitos do Homem se confundem com os seus Deveres e a Liberdade de Expressão entra na jogada.
Se para o cidadão comum, porventura mais arreigado numa Crença de Fé, onde a procriação é a sua devoção final e a temática homossexual lhe faz confusão pelo papel sodomita que propõe, há aqueles que, num plano Científico, letrado, de posição de influência e ditame sobre grupos e camadas Sociais, se devem resguardar sobre promessas e Juramentos para que os mesmos não sirvam de arma de arremesso ou vazão de preconceito latente.

“Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.”


Não julgo a carreira clínica de Gentil Martins. Nem tenho apetências para tal.
Posso sim dizer que é justo este o tipo de posicionamento Social – mesmo com a sua posterior reacção -, propagando posições retrogradas, assomando em seu redor outros que tais, que denigre a pessoa e com isso, pela Sociedade viral que se vive, a sua obra.
Gentil Martins pode falar certo quando menciona um uso inapropriado de barrigas de aluguer por quem delas aparentemente não tem necessidade, não pode o Homem criticar quem delas faz uso, dando também azo a provocações mediáticas que lhe são feitas.

No final acabamos por descobrir que um dos maiores médicos portugueses do séc.XX por lá permaneceu, jurando em 1953 algo de 1771.
É pena, porque estamos em 2017 a imaginar o futuro daqui a centenas de anos.

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