tempo para pensar

Olho para o ecrã do meu mundo acrílico.
Dele recebo a informação que leio. Do Mundo em que digo viver. Que digo sentir.
De algo que acho perceber sentir viver.
Olho em redor, entre aqueles que, a não serem de mim diferentes, são, em carne, iguais.

O uso que cada um de nós faz deste mundo digital é distinto. Eu refugio-me na distância segura do encontro com a realidade que sei que existe.
Sei o seu cheiro.
Acho.
Sei que por detrás da catástrofe existe uma dor.
Vivi-a no impacto das Torres Gémeas em 2001.
Windows on the World.jpg

Estive lá por volta do ano 1994. Teria algo como 11 anos, um imaturo e imberbe adolescente desirmanado da Família, viajando com a minha avó.
Quando subi ao último andar e as portas do elevador se abriram no view deck, o único que vi foi uma neblina sobre Manhattan.
Era acrílica a visão que tinha. Não era um impacto de realidade. Achei que era um muro. Não um esplendor.

Ao ver a transmissão em director do segundo avião colidir com a Torre Norte percebi esse momento. Ele não era acrílico. Era o cheiro desse espaço que decorei.
Era um momento que vivi. De um instante banal, sem esplendor, com promessa de algo que não obteve retorno.
O instante televisionado para a Humanidade era de espanto. Quase um salto para a Humanidade.
Alguém caminhava em solo nunca pisado.

Em 2003 voltei ao local do impacto. Não no view deck. 110 andares abaixo.
Manhattan era outra. Uma folia de descontentamento. De realismo disfarçado de memória e glória.
De algo que a ser acrílico, era real.
O cheiro era da devastação feita obra. Do refazer continuo do Homem frente à adversidade.
Do som de um silêncio audível em gentes que nos seus mundos acrílicos guardavam recordações do momento.

Não sei em que momento, depois desse dia 11 de Setembro, o Mundo voltou a ter tempo para pensar.
Vivemos presos ao imediatismo da próxima crise e da solução que traga o que dela advir.
Já não lhe reconheces o cheiro. Só o som. O movimento da imagem que se capta.
Já mais ninguém é Humano outra vez.
Só um semblante risonho captado numa selfie.
Algo a ser lembrado como uma felicidade de um momento que se fez tão acrílico como o tempo que levou a pensar:
Nada.

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