76.460,70

Vamos falar de coisas fúteis. Ou no caso escrever.
Estou incerto dada a confusão instalada no mundo – no da fantasia – já que o mundo dos problemas, onde o racismo existe e Trump é Presidente, me tomar tempo para pensar e não expedir textos como o fazia em anos anteriores.

Farei o exercício momentâneo de expurgar esse fait divers sobre Cristina Ferreira (lagarto, lagarto, lagarto), já que a Silly Season está, neste instante, instalada.

O título da crónica diz tudo: 76.460,70
Este é, segundo se diz – porque tudo na vida das Cinderelas de chinela é um suponhamos (acentue-se como se queira) – o valor cobrado num processo contra a Masemba, anterior editora da revista homónima de Cristina, onde a alegação me é desconhecida por não ter seguido os links do artigo do Observador.
Ainda assim, e porque o fútil não o deixa de ser quando de dinheiro se trata – e ainda esta semana vimos Mário Centeno ser mais Centrista à Direita económica que a promessa que a Esquerda Unida dele fez crer num obliquo elogio ao fim do resgate grego -, tudo se relativiza uma vez que aquilo que a trend setter ganhará mensalmente da SIC será superior ao que cobra judicialmente: 80.000,00€.

Não sou fútil, ou a sê-lo tenho noção do real e do ridículo.

Vejamos, 80 mil euros por mês, mesmo que dependente de resultados acessórios para ganhá-los, é uma obscenidade no país cuja média salarial é de 676,67 por mês. Mais, o uso abjecto e sua mistificação quando justaposto com o inenarrável incentivo fiscal ao retorno dos emigrantes a Portugal, proposta Socialista ao OE’19, quando o residente se vê espoliado em sucessivos impostos indirectos revela bem como a sórdida mente política define a Nação.

Atenção, não faço uma crítica à capa sensação do Correio da Manhã – aquilo é pura manha populista – nem mesmo ao ardiloso (e divertido) texto que o Observador escreveu sobre a Tina de Barcarena que se tornou Cristina-Star em Queluz para ir agora ser a manda chuva de Carnaxide, mas não deixa de ser um reflexo de desesperança a mesma ser comparada, ou mesmo se ver como reflexo, com Oprah Winfrey (revista-glória-do-ego-em-mente) versão portuguesa. Faço sim a crítica ao facto desta futilidade ser o alicerce da Sociedade das galinhas vizinhas serem sempre mais do nosso interesse que aquela que temos ou criamos.

Big Brother SIC.jpg

Quem sabe por isso os tele-show-mícios matinais e dramas da tarde, junto com as telenovelas, façam tanto sucesso para relativizar tudo junto do mínimo denominador comum.
Na ausência de se viver a vida, preocupamo-nos em olhar o umbigo alheio como se, pelo acto da inveja voyeristíca, essa realidade se tornasse nossa.

Emigrar é visto como mau quando a retórica eleitoralista a isso assiste. Se for oportunidade expansionista torna-se a nova vanguarda.
Os salários milionários aprazem-nos quando quem os ganha nos significa algo. Se nada nos diz a corrupção é o seu alicerce e o sindicalismo existe para abdicar da meritocracia que o permite.
O político agrada-nos enquanto nos diz aquilo que queremos ouvir. Quando a verdade, mesmo que toscamente dita, se faz presente, o político torna-se “lamentável”, “ridículo” e “insultuoso”.

Mas no final tudo isto é fútil e ridículo.
O importante é passar a mensagem positiva a todo e qualquer custo – sob o benefício do share -, não vá a Silly Season terminar e se perceber que o fait divers de Cristina é o dia-a-dia de um país entregue à míngua dos seus esperneios como hiato de um mal maior: da morte e dos impostos ninguém escapa.
(talvez os políticos, esses legislam em causa própria)

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